Entretanto a manhã ia seguindo o seu curso, se bem que no interior do palacio real a manhã d'aquelle dia não fosse mais do que a continuação de uma noite de horrores.
No vestibulo e nas galerias, enxameava{101} silenciosamente um enorme concurso de pessoas, que desejavam informar-se do estado da rainha. E as que alli faltavam, tinham sido attrahidas aos templos pela voz plangente dos campanarios.
Aproximou-se o meio dia, e a vida da rainha declinava rapidamente. Mais um quarto de hora passado, e a rainha expirou. Então o rei pareceu acordar de subito, agitado por uma commoção horrivel. Poisou na fronte pallida de Mercedes o derradeiro beijo, e tirou-lhe do dedo, com uma verdadeira delicadeza de noivo, o annel nupcial, que para sempre o ligará áquelle formoso cadaver.
Todas as pessoas da côrte o rodeiaram, e piedoramente o obrigaram a sahir d'alli. O rei deixou-se ir, como um authomato. Entrando nos seus aposentos, mandou chamar o presidente do conselho de ministros, com quem se demorou conferenciando largamente.
A esse tempo, o canhão annunciava á capital das Hespanhas que a rainha Maria de las Mercedes era um cadaver.
O telegrapho communicava para França, á avó e aos paes do rei, a triste noticia: «Roga a Deus pela alma da minha Mercedes, que está no céo. Teu afflictissimo, Affonso».
Depois de conferenciar com Canovas{102} del Castillo, o rei quizera ficar só; as pessoas que de perto o vigiavam ouviam-n'o dizer: «Pobre Mercedes! que rapida felicidade foi a nossa!»
Era ainda um dialogo com a rainha atravez do invisivel; as duas almas viam-se e fallavam-se, tão distantes uma da outra!
O cadaver da rainha permaneceu na mesma camara em que ella tinha expirado: alli havia nascido o rei Affonso, vinte annos antes. Amortalharam-n'a com o habito de Nossa Senhora das Mercês, como pedira. Para o triste noivado da sepultura não quiz a rainha outras galas. As damas de honor fizeram guarda ao cadaver, durante a tarde e a noite. Eram as mesmas que a tinham acompanhado á bazilica da Atocha, no dia do casamento. Dir-se-ia que o cortejo das nobres damas só tivera tempo de mudar de vestido, e que n'um instante se haviam transmudado em lagrimas de luto as rosas do noivado.
Como que obedecendo a uma horrivel sina de familia, a rainha Maria de las Mercedes alli estava adormecida no somno eterno, ella, a formosa; sua irmã, a infanta D. Amalia, morrera em 1870, de enfermidade analoga, e seu irmão, o infante D. Fernando, baloiçado sobre o tumulo{103} por igual motivo, fallecera um anno depois. Um vendaval de morte parece esperar que a vida dos principes da casa de Montpensier seja chegada á efflorescencia da mocidade para os revessar impiedosamente ao mysterio da sepultura.