IV
O AMOR

A diplomacia moderna annullou o coração dos reis. Não é o amor a base das familias reaes; a diplomacia aconselha os principes reinantes a procurarem esposa segundo as conveniencias da politica internacional. Todo o homem tem o direito de escolher a mulher que mais o captivou pelos encantos ardentes da formosura ou pela serena attracção da virtude; de preparar o seu ninho conjugal com a doce phantasia de quem estivesse alfaiando um templosinho para uma divindade adorada; de antegostar pela imaginação as delicias de uma vida cheia de remanço e conforto, chilreada de palavras meigas, estrellejada com os reflexos luminosos dos sorrisos leaes e honestos; quer dizer, todos podem conquistar{34} pela familia a immortalidade do coração, reviver pelo amor no futuro dos filhos idolatrados, todos—menos os reis. O que se exige dos monarchas não é, em primeiro logar, que constituam familia, é que constituam dynastia; em segundo logar o que se exige não é que simplesmente pensem na familia a que vão dar origem, mas que ponderem reflectidamente se a familia a que a princeza escolhida pertence reune as condições de riquesa e poderio que, segundo a politica, convém ter em vista. De modo que um rei não desposa uma mulher; casa com uma nação. Não é uma alliança individual; é uma alliança internacional. Depois que a diplomacia intendeu nos casamentos dos reis, são vulgares na historia de todos os povos os tristes romances em que as rainhas dissolutas perturbam a vida de uma nação inteira por um capricho do coração, sedento de amar. Dos casamentos diplomaticos resultam escandalos tamanhos como aquelle a que Portugal assistiu no tempo de Affonso VI. Ora os exemplos são tanto mais prejudiciaes quanto mais d'alto partem; parecem-se n'isto com as torrentes: quanto maior é o despenho, tanto maior é o impeto da agua. Os escandalos que se exhibem nos thronos teem um publico numeroso, a nação. Portanto, contaminam muita gente.{35}

No velho codigo indiano de Manú, os casamentos de inclinação são chamados da musica celeste. N'esses casamentos de Deus, como diz ainda o nosso povo, ha com effeito uma harmonia santa, celeste. Sob a bençam da Egreja reunem-se dois corações em flôr, cheios de esperança e de alegria, de sonhos e de sorrisos. São duas primaveras que se enlaçam, e é certo que não ha primavera que não deixe vêr a Providencia por detraz do véo transparente dos seus jubilos. Aqui está, pois, explicada a expressão de Manú.

Affirma Lichtenstein que entre os cafres koussas não preside ao casamento o menor sentimento affectuoso. Pois a diplomacia parece tambem apostada em asselvajar os reis, em tornal-os á barbarie. Culpa da politica, quasi se poderiam comparar aos algonquinos, em cujo vocabulario falta um verbo que signifique amar; e dizemos quasi, porque nos lembrou que os reis costumam dizer officialmente: Minha muito amada esposa: existe a palavra, mas falta, as mais das vezes, o sentimento que ella exprime. O que é muito peior, porque representa uma falsidade, que as civilisações toleram.

Os vocabularios algonquinos são n'esse ponto mais sinceros...

Michelet disse n'um dos seus livros historicos{36} que a Hespanha pendia para barbara, apezar do estreito; l'Espagne tient à la barbarie, malgré le detroit. Pois justamente á hora em que nos paizes mais civilisados os reis casavam obrigados pelos seus ministros, e nos paizes mais dôces, em que o céo e a terra parece deverem embalar a alma em branduras amorosas, não eram mais felizes nem mais livres; na Hespanha, apezar de barbara, como disse Michelet, um rei, que subia a um throno em que não estava ainda firmado, teve a coragem de repartir o seu coração entre a patria e uma mulher.

Affonso XII comprehendeu, em plena mocidade, a verdadeira missão do homem. Realmente, por mais brilhante que seja um espirito, por mais perseverante que seja uma vontade, sempre a vida de qualquer homem ha de derivar por entre duas religiões: a da familia e a da patria. São duas prisões que aferram toda a existencia: preso á familia pelo amor; preso á patria pelo trabalho. Aos reis, apezar da sua elevada posição, não cabe menor quinhão de trabalho do que aos vassallos; por isso já um monarcha portuguez, que tinha uma perfeita comprehensão dos seus deveres, chamou aos encargos de um rei o officio de reinar.

Mas o amor de um rei era facto tão{37} raras vezes presenciado, que precisava ser tractado com recatos. Atirai bruscamente com uma flôr delicada, e vel-a-heis desfolhar. Ora nada ha mais delicado do que o amor, sempre que elle mereça este nome. Se D. Affonso XII houvesse feito alarde do seu amor, corria risco de vêr maltratada a pura flôr do seu coração. Um rei da Europa, em pleno seculo XIX, precisava ser cauteloso, embora perseverante, nas expansões do amor. Importava que a politica e o paiz se fossem habituando lentamente a vêr amar um rei.

Era em verdade para receiar que a interposição de uma corôa fosse obstaculo insuperavel á ardente paixão dos dois primos. Portanto, o joven rei de Hespanha quiz tranquillisar o animo de Mercedes. Mas, como poder dizer-lh'o livremente, no meio da côrte—a côrte, a eterna sombra dos reis? Era preciso aproveitar o menor incidente; sobretudo, era preciso sabel-o aproveitar.

D. Affonso triumphou d'esta difficuldade.