Estava a côrte em Aranjuez. Passeiavam o rei, sua prima Mercedes, a infanta Christina, o duque de Sexto, as damas de honor, sob o arvoredo da Cintra hespanhola. De repente, pela estrada de Toledo, roda uma carroça, envolta em turbilhões de poeira. Com uma simples palavra, o{38} rei faz detel-a. Sobe para ella, quer que sua prima suba. A dama de honor de Mercedes sobe tambem. Parece a todos um capricho de rei, um brinco de adolescente. Ah! mas não era só isso... D. Affonso, em pé, vigoroso e alegre, solta as bridas á parelha, faz estralejar o chicote. Parte a carroça n'uma carreira doida. Sobresalta-se a côrte com a imprudencia; gritam, chamam...
O que! Quem póde deter esse vertiginoso vôo do Amor, Phaetonte que parece ir despenhar-se n'um mar de fogo?!
Era o primeiro momento de liberdade, mas ainda assim incompleta, porque havia dois ouvidos extranhos. A dama de Mercedes não fallava allemão; foi justamente por essa razão que os dois primos escolheram essa lingua para as suas confidencias.
E emquanto as nuvens de pó se enovelavam sob as patas de duas possantes mulas hespanholas, e o chicote estralejava elegantemente vibrado, emquanto pareciam correr para um abysmo, n'uma aventura romantica, dizia a sua prima Mercedes o rei de Hespanha, em puro idioma teutonico: «Deixa dizer o que disserem, e fazer o que fizerem, has-de ser minha mulher. Mas guarda segredo.»
Mercedes pôz o dedo sobre a bocca, e sorriu.{39}
Então o rei refreou as bridas á parelha. A carroça começou a rodar suavemente. A dama de honor agradecia provavelmente a Deus o havel-a livrado de um perigo, que as palavras mysteriosas do rei lhe fizeram de certo receiar cada vez mais. E D. Affonso tambem agradecia á Providencia o presente d'aquella carroça, d'aquelle instante de liberdade.{40}
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JUBILOS
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