V
JUBILOS

O rei D. Affonso XII soube vencer, por um trabalho lento, surdo, perseverante, as difficuldades que a politica naturalmente havia de levantar contra um casamento de inclinação, especialmente n'um paiz tão desorganisado, tão inquieto como a Hespanha. A politica, firme no seu papel, quereria decerto que o rei casasse ao sabor das paixões partidarias; cada facção desejava porventura que a nova rainha de Hespanha representasse no throno as ideias que mais lisonjeassem as suas ambições. As mulheres são como as flôres; diga-se mais uma vez. Teem muito do paiz em que nasceram: n'um sorriso feminino revela-se a cada momento uma nacionalidade.{44} Ora a princeza extrangeira que fosse sentar-se no throno hespanhol, se pertencesse, por exemplo, a uma forte nação, profundamente monarchica, agradaria especialmente aos affonsistas, que veriam n'essa alliança uma ancora capaz de aguentar, contra os mais rebeldes temporaes, a açoitada nau da monarchia hespanhola.

O rei tinha de vencer, portanto, a obstinação dos seus amigos, o que ás vezes é ainda mais difficil do que vencer a pertinacia dos inimigos. Para conseguir a victoria, era mister um grande trabalho de paciencia, de tenacidade. Apezar de muito novo, o rei soube aplanar o caminho, vencer os obstaculos, triumphar.

No dia em que fez vinte annos, a sua obra estava realisada; podia já declarar á Hespanha, e depois á Europa, que elle procurava no amor a estabilidade do throno, porque nenhum laço ha ahi mais forte do que o amor.

«Quando a minha patria vir, pensava certamente o rei, que a familia real de Hespanha offerece, como todas as outras, um doce espectaculo de vida tranquilla e simples, quando reconhecer que somos todos hespanhoes, na côrte e fóra da côrte, sentir-se-ha cada vez mais identificada com a monarchia que resuscita em mim, verá na minha familia o espelho da sua, nos{45} meus filhos uns irmãos, ao passo que eu verei nas familias de Hespanha como que uma reproducção multipla da minha, porque todos serão meus filhos.»

Entrincheirado n'estas nobres convicções, havendo vencido pela perseverança todas as difficuldades politicas, o rei pôde emfim fazer annunciar o seu casamento pelo ministro dos negocios extrangeiros ás côrtes da Europa.

Em Portugal, pelo menos, esta noticia foi recebida com profunda sympathia. Em Lisboa a princesa Mercedes era conhecida, estimada; o rei D. Affonso tambem. Um casamento por amor chama sempre sobre si as bençãos dos que teem coração; especialmente quando os noivos deixaram no nosso animo uma grata impressão.

Portugal abençoou-os pela bocca da sua imprensa, como se em verdade se não tratasse de um casamento de principes, mas de dois simples primos enamorados, que, depois de haverem regressado á patria, iam santificar á beira do altar as suas alegrias da infancia e as suas tristezas do exilio.

Dez dias depois do vigessimo anniversario do rei, partiram para Sevilha o marquez de Alcañices, o duque de Sexto, o marquez de Frontera, e D. Fernando de Mendonza a pedir officialmente a mão da{46} bella princeza. Era, finalmente, o epilogo do gracioso episodio da estrada de Toledo. Perto de Aranjuez, o ousado conductor da carroça dissera, fustigando a parelha, digam o que disserem, e façam o que fizerem, tu has-de ser minha mulher; mas guarda segredo. Mercedes soubera ser discreta como a estatua do silencio. Mas os emissarios do rei de Hespanha, entrando no palacio de S. Telmo, aclararam o mysterio d'aquella tarde aventurosa.

A dama de honor da princeza aprendeu talvez n'esse momento a traduzir allemão...