Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos depois de os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a sua missão é espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que seria um crime affrontoso, e uma ingratidão odiosa.
Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois campos hypothecados, não téem a espreital-os a reportagem dos jornaes, a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros literarios e aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os de longe; especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante dos olhos da patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação d'este opusculo.
Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de perpetuar uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, que abastará ás modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã, no trato simples de camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde do Minho.
Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas, podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e genuinas glorias nacionaes?
Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que se deixaram enfermar de[{15}] leviandades e desacertos continuados. Nós somos um povo doente d'essa pécha. Mas a consciencia ainda reage por vezes, brada, impõe-se, faz-se ouvir e attender.
Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica.
O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide, foi Manuel, o mais novo, nascido em 1893.
O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do grande romancista.
A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, privilegio que a sua edade, aliás, explica.
*
* *