—Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu!
Eu completei mentalmente o seu pensamento: «E ainda não voltou...»
Noticiei á sr.ª D. Anna que um poeta da moderna geração, dos melhores, se não o melhor, havia recentemente cantado A acacia do Jorge em quadras maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, como gotas d'agua cahindo tristes de uma fonte solitaria.
Posso agora completar essa informação, reproduzindo integralmente a poesia de Affonso Lopes Vieira:[{19}]
A ACACIA DO JORGE
Camillo! como acreditar, como hei de
Entender estes versos que deixaste?
Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,
Cada anno te espera,—e não voltaste!Já tantas vezes deu a sombra amiga,
Que tu gostavas tanto de gozar...
Florida, tem um ar de festa antiga
Na esperança de te vêr voltar!Voltar? A velha arvore que cance!...
Por fim ha de ruir, n'uma amargura.
Prepáras lá um ultimo romance?
Suprema indiscreção! Genio e loucura!Dolorosa novella desmanchada,
E que nos deixe pallidos e absortos,
Onde nos digas, grande camarada,
O gordo amor de brazileiros mortos!Os Amorosos, que se vão chorando
Á porta do convento, e amortalhar-se...
Com habitos de terra aconchegando
Os esqueletos de ossos a chocar-se...Um romance da cova, com morgados
Que o além desbastou; com almas finas
De mysticas de Amor, lindas Meninas
Em mosteiros chorando, abandonados!E a descomposta, lugubre risada
De romantica bocca, que era a tua,
N'esses reinos da Morte gargalhada
Sobre defuntos namorando á lua![{20}]E toda a vã e toda a derradeira
Esperança do cabo da viagem;
Com descriptivos, á tua maneira,
D'esse Minho da Morte da paisagem...Ó Acacia! é já tempo: desesperas?
Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...
Nunca mais voltará esse que esperas,
Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!E os versos d'elle, onde a saudade existe,
Que á despedida te gritou tambem,
Ah! não são mais que uma mentira triste:
Como tudo, a final, que nos faz bem.Poetas! perguntae ao pensamento
Que mais chimeras e desgraças forge?
Antes te séque um raio, ou parta o vento!
Ó Acacia do Jorge...
*
* *
Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as portas. Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo, respeitosamente.
A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu espirito com uma grande nitidez de saudade rediviva.
Eu ia dizendo:
—Era aqui a casa de jantar.[{21}]