Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse extranho visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra.
Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, primeiro no tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido n'um leito, e de Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de todas as dores reaes e imaginarias que lhe attribularam incessantemente a existencia.
Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára com elle algumas palavras.
Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a seu tempo.
Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do monumento, e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.
—Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram cantadores, entre os quaes se distinguiram o Gallego e a Rosa Cantadeira. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do Gallego, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos. «Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena tenho de o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta[{18}] expressão como a de um actor comico. Por força!» Nunca mais, concluia o sr. Carvalho, poderei [esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa].
Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um rapaz, poisei os olhos sobre a acacia do Jorge, de cujas amplas frondes cahia uma sombra profunda e saudosa.
E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:
Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,
Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.
A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza: