—É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O doutor respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O sr. visconde viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação para evitar[{22}] um desengano. Momentos depois o medico despediu-se, e a sr.ª viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até á escada. Ouviu-se então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr. visconde estava prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro momento, ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora.
—O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?
—Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns projecteis inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto. Todavia não largára mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.
—De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poída.
A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:
—Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras. Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.
E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de baloiço, morrendo.[{23}]
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Subimos depois ao segundo andar.
Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.