Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?
alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.[{64}]

Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinho
aos loireiros do val á busca de algum ninho.

Sob este parreiral tão verde e tão fragrante
beijei apaixonado a minha terna amante.

Costumava ir de tarde ao moinho da serra
vêr como o sol transpunha as montanhas da terra.

Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentava
ao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.

Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas
ouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.

Era-me gosto á noite o rouxinol saudoso
dizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.

Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro
poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.

Ao canto do quintal da casa onde eu morava
uma anágua plantara, e flores que eu regava.

Conheço a minha terra; e cada pedra ou planta
me saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.

Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle, legislador maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.

Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre da mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava entre lyras de poetas e brazões de aristocracia literaria.

Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira[{65}] esse moço tão bem estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades da vida adensaram—a doença principalmente.

Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação da Folha dos curiosos, um dos quaes curiosos fui eu.

N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com inexcedivel brilho, a Revista universal lisbonense.

Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor locução. Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho ali deixou, é primoroso—até o noticiario.

Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario pelo teor de Castilho.

Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que ironia e que pureza castiça de linguagem!

Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? Pois não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, a enramilhetar locaes que parecem bouquets; Castilho a sorrir de si mesmo por ter descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não ter que envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas minimas.