N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma das mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu brado aquella briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem as minhas canceiras e preoccupações politicas, dada a boa disposição do visconde de S. Miguel de Seide como agora sei, certamente nos haveriamos reconciliado ali n'aquella época. Mas eu andava em correrias, em comicios, em conferencias, em combinações eleitoraes: não chegava para as encommendas. Forte cegueira! Até me parece agora impossivel que eu fosse então o mesmo homem que hoje sou!
O que é certo é que venci com o povo—a grande classe dos pescadores—coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem vence, por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as batatas. D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. Assim o povo pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.[{76}]
Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito cantado nas ruas.
Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro eleitoral em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles espontaneamente souberam tecer com toda a ingenua rudeza dos seus processos poeticos:
Boa vai ella!
Ora viva o Pimentella.
Que dá o seu coração
P'ra vencer a eleição.Boa vai ella!
Ora viva a piscaria.
Vai toda votar em barda
Pela nossa melhoria.Boa vai ella!
Ora viva o Albertinho,
Que vai como deputado
Cá pelo nosso povinho.
Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito tempo. O povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato contra a vontade de muitas influencias poderosas e colligadas.
N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.
Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me demorar nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de me congraçar com o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o desejava, e eu não o recusaria.[{77}]
Retrato de ALPHONSE KARR que pertenceu a Camillo