A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me ha pouco João Penha:

—O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse intento... por ciumes.

Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como João Penha foi, na{35} phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo estudante de Coimbra.

N'aquella quadra, como na organisação artistica de João Penha, incluindo a sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de vieille roche das lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro Saint Germain, elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da lingua, a lição classica dos mestres, a compostura aristocratica da phrase, que não chega a desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se na satyra. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pellica uma nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no collarinho a mancha roixa da bôrra. E se passa da tasca das Camêllas para o salão nobre da Poesia madrigalesca, substitue facilmente a batina rôta pela casaca broslada, é um cortezão de Luiz XIV quando empunha a taça, refulgente de aureas facetas, para brindar as damas delicadas:{36}

D'este copo de vinho generoso
Dai-me que eu tire o alento que desejo,
Para que o novo canto, sonoroso,
Desfira na guitarra em doce arpejo;
E já que estou devéras amoroso,
Aproveito apressado um tal ensejo
Para erguer á leitora, que me escuta,
Um brinde que me deixe a taça enxuta.

Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio, do poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do Homem do gaz, do Varão do Luxemburgo, do Conselheiro Rodrigo, e da Tia Maria Camêlla.

Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna, não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de vista João Penha e a Folha exerceram uma sensivel influencia. O soneto da escola italiana, tão abandonado como antiqualha árcade depois de Bocage, resurgiu no acuro parnasiano{37} de João Penha. E todos os da Folha, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes artistas no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo, Junqueiro, Simões Dias, Candido de Figueiredo, etc.{38}
{39}

[III]

Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma idealisação, uma phantasia de artista.

Eu não encontrava, nos sonetos do Vinho e Fel, a abstracção absorvente de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa o coração, reduzindo-o a cinzas.