A Ironia andava de braço dado com o{40} Amor, no lyrismo de João Penha, mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do que como a crua expressão da Verdade.
Não descobria atravez das Rimas o typo constante, persistente, de uma mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas.
Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do Vinho e Fel, a impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a alma na voragem do scepticismo.
Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação romantica, que se comprazia em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo, puramente ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento.
É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia:{41}
Um rosto encantador, quasi moreno,
De uns grandes olhos verdes animado:
Negro o cabello, em tranças ennastrado;
Correcto o supercilio, iris sereno;Vermelho o labio, sorridente e ameno;
Breve a cintura; o collo, assetinado;
Um donaire, das outras invejado;
Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:Eis a dama por quem chorando anhélo!
Rival das graças do cinsel iónio,
Mas fria como a neve: o meu flagello!Eis a minha Nathercia, o cruel demonio
Por quem vivo perdido, mas tão bello
Que nem lhe resistira Santo Antonio!
Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção artistica de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a produzir effeitos pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do bohemio com a inspiração sentimental do lyrico.
Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair sobre o retrato da{42} primeira pagina o peso de um paio roliço de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada:
Mal pode phantasiar-te a mente accêsa
Tão gentil como quando, venturoso,
Te vi a vez primeira, ébrio de goso,
Estatico de pasmo e de surpreza.Que prodigio de esplendida bellesa!
Que labios, que sorrir, que olhar piedoso!
Que opulento cabello... um mar undoso
Onde escondêras a gentil nudeza!Assentada n'um banco de verdura,
Junto á margem do múrmuro Mondêgo,
De um Corregio vencêras a pintura.Ai! perdi, desde então, paz e socego:
Se estavas tão graciosa em tal postura,
E comias um paio de Lamego!
E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta, que não encontrava na realidade{43} da vida a mulher ideial das suas noites de phantasia romantica.