Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo seu talento de observação.
João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: n'aquella, é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não sejam communs»; n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são descriptas, não como o artista as possa vêr, mas como a multidão as vê.»{57}
Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais longe do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo e o realismo. O famoso auctor do Roman expérimental adoptou como formula generica o naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso á natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»
Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes ou vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em baixo.
«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne saurait se tromper.»
Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos e{58} dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que os corpos girem no azul ou na terra.
Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.
Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas obras do espirito humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover.
A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientação da medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de sciencia, que pretende guiar o espirito na investigação da verdade.
Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho; pelo contrario, prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu.{59}