Portanto está fóra da esphera da arte, que é fundamentalmente suggestiva e emotiva.
Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada.
A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no prefacio da Tristia, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos nephelibatas.
Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias não ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra recente dos novissimos:
—Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto poesia sem rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, é prosa.{60}
E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com que Theophilo Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même».
Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da phrase de Junqueiro nos Simples: «A fórma poetica encaminha-se á solução final. Horisonte immenso.»
Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai até onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os limites da metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem quebra da arte e do genio da lingua. Castilho introduziu na fórma poetica a novidade dos exdruxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela nacionalisação dos alexandrinos francezes. Thomaz Ribeiro, no D. Jayme e na Delphina, percorreu todos os metros admissiveis{61} na versificação portugueza, empregando o de treze syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo organico da lingua portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medição latina e resuscitar a toante castelhana,[[8]] Mas os poetas que vieram depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos elles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu vêr não era menos monotona que o refrain dos nephelibatas): nada d'isto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais syllabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento kilometrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão{62} de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o tripartido, privando-o da cadencia que deleitava o ouvido.
Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do romantismo
Prosa e verso têm balizas,