—Não tenho tempo, respondeu ele. Encheriam três volumes.
Três volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenáculo numeroso, que viveu na alegria e nas letras, que teve aventuras e triunfos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada com prestigio na tradição académica.{9} Ele, erguido no pedestal que o voto unânime dos seus contemporâneos lhe havia consagrado, via do alto, como um ídolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava, observava todas as evoluções caprichosas dessa legião gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno dele, conhecia todos os segredos da biografia de uma geração, que há de ficar eternamente lembrada. Três volumes, pelo menos, e não seriam de mais.
Mas percebe-se que lhe custe meter ombros a um labor de reconstrução histórica em que a pena seria como um estilete a revolver dolorosamente o coração saudoso do escritor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa altívola mocidade académica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no fonógrafo literário da Folha e de uma boa dezena de poemas, eu que senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir{10} ás tempestades explosivas da cratera, eu próprio experimento a vaga nostalgia da Coimbra daquele tempo vendo envelhecer em Lisboa, na prosa da burocracia, do foro, do professorado e do parlamento, os poetas que há vinte anos constituíam a ala vitoriosa dos novos comandada por João Penha.
E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem agravos, nem compêndios, dormem prematuramente o somo da morte na apoteose serena, sem invejas, mas também sem desilusões, daqueles que, como Gonçalves Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro fugitivo.
Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Câmara dos Pares. O seu espírito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que era como que o último elo da sua tradição académica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente,{11} sem tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que surpreende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro num momento. Os outros que ficaram ainda, são como as árvores no Outono, que dia a dia vão sendo sacudidas e abaladas pela nortada agreste, que anuncia o inverno.
É difícil adivinhar hoje na melancólica indiferença de Simões Dias, que passa através de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido, aquela brilhante alma meridional do poeta das Peninsulares, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinóis do Mondego.
Cândido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse das mais vulcânicas, cansado de repartir os restos da sua mocidade entre a cátedra de professor{12} e a Secretaria da Justiça, correu ao encontro da velhice, denominou-se voluntariamente Caturra, atirou-se ás questões de filologia, e conseguiu tornar-se rabugento contra os que escrevem aereonauta com um e supérfluo.
Este correctíssimo poeta da Folha é hoje um suicídio ambulante. Mata-se a ensinar a língua portuguesa a quem a não quer saber. Já um ministério lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Vila Real. Cândido de Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar Novas lições praticas da língua portuguesa.
Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por aí, como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantizava na Folha as lendas do alto Alentejo, um que só doutorou em direito, e estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva na{13} Universidade para os braços do senhor José Luciano no Parlamento.
Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de falar nos palratórios de Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguém treme de medo quando ele pede a palavra na câmara.