—E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-há o luciolante apostolado que o rodeia na cervejaria do Camanho.
Junqueiro, se houvéssemos de dar credito a todas as suas apreensões patológicas, está «precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida».[[1]] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir esta apreensão.
Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,{14} era na Coimbra daquele tempo, na Folha principalmente, a promessa florescente de um lírico primoroso, depois transviado, e a meu ver atormentado, pela preocupação constante de reformar a estética[[2]], a técnica[[3]], o Olimpo dos românticos[[4]], o paraíso dos católicos[[5]], de fundar escola e de atingir a perfeição suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu próprio conceito, são os Simples.
E talvez não sejam.
Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como{15} todos os outros, um satélite que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, antes adorado, do cenáculo, da boémia, e da Folha.
O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as ilusões desses rapazes que eram então a fina flor da geração académica. Deles, os que não estão ainda velhos por fora, começam a descair na tristeza, não direi do ocaso da vida, como apreensivamente afirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da experiência dura do mundo.
João Penha, o primaz da tribo, é advogado em Braga, trabalha honestamente para sustentar a sua família. Está ao corrente de todas as novidades literárias que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de Paris em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escritório, uma chusma de clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já depois{16} dele ter fechado o seu escritório ás duas horas da tarde, invariavelmente.
Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em serviço—disse-me ele—ás sete horas da manhã. A seu lado, no tramway, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado.
—O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira dela. (Ela era a parte contraria, uma mulher).
Questão de águas: a mais generalizada espécie de litígios no Minho.