A lenda das noites das Camelas, personificada em João Penha, subsistiu como uma das seduções tradicionais da vida académica.
António Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novíssimos, o que tem mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna, torturada pela nevrose,{24} confessa a sugestão dessa lenda boémia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pira sobre o tampo dos toneis impantes:
......... A Tasca das Camelas
Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrelas.
Mas quando António Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte anos, espessos como vinte séculos, separava da tasca das Camelas a pessoa do doutor João Penha, advogado nos auditórios de Braga. A alma espumante e radiosa das noites da boémia partira-se como a tapa das últimas libações; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castelos abandonados por príncipes cujo destino é ainda um mistério. E António Nobre, relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de desespero truculento:
Tia Camelas... só ficou a camelice.{25}
O que lembra uma situação análoga cantada por Delile nos Jardins:
......... Tele jadis Carthage
Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.
Dir-se-ia que tinham desaparecido com João Penha e com o seu tempo essas telas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camelas; painéis pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fábula parecia sorrir ainda, coroada de pâmpanos, no verso báquico do autor do Vinho e fel:
Dá-me esse onagro de vigor silvestre,
E os odres fundos, oh Sileno antigo:
Ensina-me na dor: só tu és mestre.
Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum mármore de Pradier em que uma Bacante andaluza, cingida nos braços de um Sátiro inspirado, parecia entoar um ditirambo amoroso, cortado{26} de evohés e de beijos, e de que só restava, inscrito no sóco da escultura mutilada, um sonetilho de João Penha: