Oh poetas d'água fria!
Dizei-me: a vossa musa.
Será como a andaluza
Que as noites me abrevia?

Olhai-a: que poesia!
Na dórna da Aretusa
Lá enche agora a infusa
De clássica ambrósia,

E aos lábios de cereja
Eleva, airosa e rindo,
O copo de cerveja!

Oh quadro novo e lindo!
Musas, chorai de inveja,
Musas, descei do Pindo!

Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anedotas, os episódios das noites das Camelas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição dessa boémia extinta, que{27} soa ao longe, e que exalta a imaginação dos rapazes. Para António Nobre era um «sonho», que o atraiu a Coimbra, como a devoção de Meca atrai o árabe.

Ele tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem perder a donairosa compostura de um gentleman, que jamais esquecia as luvas e o charuto, se limitava a esvaziar uma «taça», nome aristocrático com que nas Camelas a boémia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mistério, segredava:

—Repita a dose para um envergonhado, que está ali fora...

Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvaziava a segunda «taça», simulando passá-la à mão de um embuçado de melodrama.

António Nobre conhecia a tradição, a anedota, o pitoresco da lenda, mas, quando{28} chegou a Coimbra, apenas restava da boémia de João Penha, na Tasca das Camelas e na Via Latina, a lembrança de que passara outrora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo secou.

Tia Camelas... só ficou a camelice.

A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João Penha boémio.

Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vêm contar as sátiras, os epigramas que ele deixou gravados na memória das gerações.

Todos eles sabem de cor o famoso caso do incêndio, que João Penha noticiava para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade bíblica, um castigo do céu, que o deixara despojado de todos os seus escassos haveres de estudante: