João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das phrases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, n'aquella hora, sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;—do Direito que{17} elle podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na aula, com os sonetos publicados na Folha, com a bohemia alegre das Camêllas e do Homem do gaz.
Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia dó, fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um epigramma vingador.
Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo americano, interpuz-me ao demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,—muralha da China Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do brácaro Chicaneau, que parecia recortado dos Plaideurs de Racine.
Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador e do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!{18}
Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das Camêllas, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e.... por vós!
Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem, como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua competencia em questões do civel não soffre rivalidade. Escrevendo nos processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.
Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os clientes voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.
Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto, frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos com o glorioso Sampaio da Revolução, de veneranda memoria. Vindo todos os annos á Povoa{19} de Varzim, na epoca de banhos, é na confeitaria contigua ao Café Chinez que elle apparece ás noites, sempre de luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.
Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da sua banca de advogado!
—Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do americano no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a avandone.