E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:
—Não se esqueça de lêr a Nature de Hollinat. É soberba!
Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das Camêllas, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e... por vós!{20}
{21}
[II]
Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da bohemia, e o poeta do amor.
São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e nos improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto{22} de Lamego e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que preside com o applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal.
Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje na tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo sachet de vida antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.
A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.
Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de Apollo de Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do alcool.{23}
Oh vós, que do canto sois velhos freguezes,
Ouvi d'estas lyras o mélico emprego!
Nós somos as gêmas, os bifes inglezes,
Os paios das filhas do claro Mondego.Sorri-nos a vida nos calices cheios.
Dos roixos falernos das parras da Beira;
Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;
Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.Nos mostos papyros da sciencia moderna
A droga se encontra que ao somno convida;
Queimémol-os todos, que só na taberna
Os livros se encontram da sciencia da vida.Ao vento os cabellos! por montes e valles
Corramos no passo das gregas choréas!
Bachantes das praças, vibrae os cymbales!
Abri-nos as portas, gentis Galathéas!