Agora voltara-se para a bella Guiomar, tão platonicamente, por certo, como em tempo se voltara para a vega de Granada.

A rainha via-se enleada talvez n’uma duvida atroz. Quem teria razão? Seria Branca de Navarra, repudiada e virgem, ou D. Guiomar de Castro, que parecia inutilizar o rei para os seus deveres de marido?

A pobre rainha decidiu-se por esta ultima hypothese, e um dia, não podendo mais comsigo, segurou pelos cabellos a dama, e castigou-a por sua propria mão. O escandalo estrondeou, dividiu-se a côrte em partidos, um pela rainha, outro pela manceba. O arcebispo de Sevilha, talvez mal succedido junto da rainha, apesar da galanteria dos anneis, pronunciou-se, por vingar-se, a favor de D. Guiomar. E o rei, apagando na alma de sua mulher a ultima noção do decoro conjugal, levou a manceba para duas leguas da côrte, poz-lhe casa sumptuosa, e ia visital-a quando lhe aprazia chancear-se de prendas que não tinha.

Com este impulso mais, a rainha resvalara. Pelo menos a opinião publica boquejava desconfianças a respeito de D. Beltrão de Lacueva, hidalgo de los mas generosos de Ubeda, y uno de los mas apuestos y gallardos cabaleros de la córte, que comenzaba á gozar del favor del rey, y de paje de lanza habia ascendido á moyordomo mayor, diz Lafuente.

Tal foi o gentil homem que a rainha, no pendor do seu abandono e no estonteamento de uma côrte perigosa, encontrou no momento de resvalar.


II
NA CÔRTE DE HENRIQUE IV

Estava-se então em pleno cyclo cavalheiresco. O valor dava as mãos á poesia, na côrte de Castella. Muitos cavalleiros eram trovadores; não ser nenhuma d’estas coisas, importava o mesmo que viver e morrer anonymo. A magnificencia completava, como sabemos, as seducções da côrte, em que D. Joanna, de Portugal, era duas vezes rainha, pela formosura e pelo casamento.