Os passos de armas eram frequentes e notaveis. Propunham-se fazel-os os cavalleiros que queriam dar prova publica de seu brio e destreza, em honra de qualquer dama. Marcado o logar onde a lide devia realizar-se, o cavalleiro reptava solemnemente quantos por alli passassem.

O passo de armas mais caracteristico d’aquelle tempo foi o de Suero de Quinhones (1434).

Uma noite, estando D. João II em Medina del Campo, folgando com a côrte em sarau dançante, apresentou-se-lhe o nobre cavalleiro Suero de Quinhones, acompanhado de mais nove gentis-homens, e pediu a el-rei auctorização para, em honra da sua dama, fazer um passo de armas quinze dias antes e quinze dias depois da festa de S. Tiago, propondo-se os dez quebrar trezentas lanças de ferro de Milão com todos os cavalleiros, nacionaes e extrangeiros, que por alli passassem á ida ou á volta da festa do grande apostolo. Todas as damas, que não fossem acompanhadas por gentilhomem disposto a combater, perderiam a luva da mão direita.

Lafuente traz a descripção minuciosa d’este celebre passo, do apparato dos cavalleiros, do campo da lide, e dos combates que se travaram. Nem menos de 68 aventureiros justaram com os dez mantenedores. Fizeram-se setecentas e vinte e sete carreiras; mas faltou o tempo para quebrar todas as trezentas lanças. Ficou a coisa reduzida a 166, e ninguem dirá que foi pouco.

O primeiro aventureiro que acceitou o repto foi messire Arnaldo de la Floresta Bermejo, allemão, que correu seis carreiras e quebrou duas lanças.

Assim como um allemão vinha justar a Castella, muitos cavalleiros castelhanos corriam mundo assistindo a todas as grandes festas e torneios das côrtes da Europa. Tornou-se notavel como cavalleiro andante o valoroso João de Merlo, honra da cavallaria castelhana.

A recepção que em toda a parte se fazia aos cavalleiros andantes era magnifica.

De visita á côrte de Affonso V veio em 1446 o famoso cavalleiro messire Jacques de Lalain, de Borgonha, que foi recebido com honras verdadeiramente principescas.

Os torneios eram muitas vezes cruentos. Taes foram os que mal-agoiraram as nupcias de Henrique IV com D. Branca, de Navarra. O proprio D. Alvaro de Luna, justando na acclamação de D. João II, cahiu gravemente ferido.

Isto, quanto aos paladinos. Os trovadores, os cultores da gaya sciencia, como se dizia, não eram menos numerosos que os paladinos.