D. Beltrão não quiz perder esta occasião de exhibir aos olhos da rainha, por entre as pompas do torneio, a sua elegancia e destreza como grande cavalleiro de gineta, notavel entre os eximios.
Não era permittido aos gentis-homens da côrte, que acompanhavam damas, passar alem sem que com D. Beltrão fizessem seis carreiras. Os que não quizessem justar deixariam, como signal da sua deshonra, o guante da mão direita.
Sobre um arco de madeira havia muitas lettras lavradas a oiro, e o cavalleiro que quebrava tres lanças, dirigia-se para o arco, e tomava a lettra inicial do nome da sua dama.
D. Beltrão com todos os outros cavalleiros luctou em honra de uma dama mysteriosa, a dos seus pensamentos, de cuja inicial fez segredo. Mas essa dama estava presente: era a rainha.
Foi-se todo o dia n’esta festa, e o bom rei Henrique IV, tão contente ficou com o passo de armas, em que o unico ferido foi elle... moralmente, que por memoria fundou n’aquelle logar o mosteiro de S. Jeronymo, acabado em 1464.
Bom homem, o rei!
A belleza da rainha, o seu papel importante entre o circulo dos poetas da côrte, o abandono, em que se achava, de todo o affecto conjugal, a corrupção do tempo e do paço, e o boquejar do mundo, especialmente o da côrte, que é o mundo que mais boqueja e moteja, crearam em torno de D. Joanna, de Portugal, uma lenda de devassidão romantica em que, por entre anachronismos frisantes, figuram a rainha e o poeta João Rodrigues del Padron.
Resaltava das composições d’este trovador uma vaga anciedade de amar e ser amado, que encontrou echo na sensibilidade vibratil da rainha.
Um dia, de uma das janellas do paço, alguma dama mysteriosa deixou cahir uma carta, quando o poeta passava.