Padron guardou-a, e leu-a. Era nada menos que o convite para uma entrevista nocturna: pelas duas horas da madrugada, o poeta devia estar á porta falsa da cava, e bater com os dedos tres pancadas; o mais absoluto segredo devia envolver esta aventura, sob pena de mallograr-se.
Padron aconselhou-se com um amigo intimo, que se promptificou a acompanhal-o, para o defender, se a sua vida corresse perigo. Padron foi, fez o signal ajustado, a porta abriu-se, e recebeu-o, no mysterio da escuridão, uma dama, cuja voz era doce como a musica. Sobre a capa d’elle se sentaram, no chão, e ahi conversaram, cingidos um ao outro, negando-se ella a quaesquer revelações, e insistindo na condição do segredo, que devia ser inviolavel.
De tres em tres dias avistar-se-iam, no mesmo sitio, dado o mesmo signal na porta da cava.
Padron confidenciou ao amigo o que se tinha passado, e um e outro, por mais tratos que déssem á imaginação, não puderam sequer suspeitar quem a dama fosse.
Á terceira noite, nova entrevista. As mesmas instancias por parte do poeta; a mesma reserva por parte da dama. Pediu-lhe elle uma madeixa de cabello, cortou-a por sua propria mão; porêm nem Padron nem o seu amigo puderam depois adivinhar de que dama da côrte fosse o cabello.
O rei andava fóra: em côrtes, diz a lenda. Mas ia regressar, e a dama, n’uma nova entrevista, annunciou ao poeta essa contrariedade, que o era realmente, porque as chaves d’aquella porta ficavam na camara do rei.
Conta a lenda que Padron, para experimentar de que jerarchia fosse a dama, lhe pedira dinheiro, emquanto lhe tardava de casa. Tem a gente o direito de suspeitar da intenção d’este pedido, pondo em duvida que Padron não recorresse ao processo ignobil de um mr. Alphonse, poeta e villão.
N’outra noite, a dama deu-lhe as joias, mas recommendou-lhe que as desmanchasse, porque eram da rainha, e podiam ser conhecidas. Padron acceitou-as, e não diz a lenda que fossem restituidas.
Entretanto, o rei chegara, e a porta da cava deixou de abrir-se. Mas o poeta insistira sempre e, finalmente, de uma vez a porta abriu-se.