Queixou-se Padron de que a dama levasse o receio de declarar-se até á desconfiança affrontosa. A dama acabou por ceder, e fez uma nova concessão. Estava proxima a festa de S. Pedro; que lhe désse elle uma joia, que por ella a distinguiria na festa. Padron tinha apenas comsigo, de que pudesse dispor, um cinto escarlate. Tirou-o, e deu-lh’o. A dama afiançou-lhe que o poria em laço no cabello.
Chegou o dia da festa. Padron e o seu amigo esperavam que a côrte se dirigisse para a sala do throno. Ambos procuravam avidamente com os olhos a dama do laço escarlate. Na cabeça da rainha o descobriu o amigo de Padron, e fez signal ao poeta. A rainha surprehendeu esse movimento, e o poeta, sem dar por isso, tão louco de alegria ficou, que nos torneios d’esse dia se avantajou a todos os cavalleiros da côrte.
Á noite, Padron bateu á porta da cava. A rainha, porque era ella a dama, recebeu-o, mas para lhe censurar asperamente a sua indiscreção, e para o ameaçar com a morte se não sahisse essa mesma noite de Castella.
Padron obedeceu, e partiu com o coração despedaçado, chorando a sua perdida felicidade, partindo só e triste, como elle proprio, segundo a lenda, o diz na trova.
... E assim iam corridos mais de seis annos de casamento esteril, quando, em 1461, uma noticia inesperada explodiu: a rainha estava gravida.
O rei Henrique delirou de contentamento, mas o paiz inteiro ria do jubilo do rei, porque estava capacitado de que o esperado herdeiro do throno era o fructo immoral dos amores adulterinos da rainha com D. Beltrão de Lacueva.
Porêm o rei continuou a delirar de jubilo, e ordenou que D. Joanna fosse conduzida a Madrid, onde elle estava, devendo fazer a jornada n’uma liteira, para que mais repoisada viesse.
João Pacheco, marquez de Vilhena, e o arcebispo de Toledo, prevenindo os conflictos politicos que deveriam derivar-se do parto da rainha, aconselharam o rei a que chamasse para a côrte, onde melhor poderiam ser educados, seus irmãos, D. Isabel, que tinha então dez annos, e D. Affonso, que apenas contava oito, mas que, segundo o tratado de paz feito entre Henrique IV e seu tio o rei de Navarra, deviam casar com D. Fernando e D. Leonor, filhos d’este monarcha.[4]
Em março de 1462, D. Joanna, de Portugal, deu á luz uma filha. O rei ordenou que se fizessem festas pomposas. Era aquelle, para elle, um presente do céo! diz Lafuente. E eu creio que fosse assim.
A princezasinha recebeu o nome de Joanna. Baptizou-a o arcebispo de Toledo, tendo por assistentes os de Calahorra, Carthagena e Osma. Foram padrinhos o embaixador de França, conde de Armagnac, e o marquez de Vilhena; madrinhas, a infanta D. Isabel, irmã do rei, já então aposentada na côrte, e a marqueza de Vilhena.