Contrastam singularmente com estes jubilos da côrte de Castella os lacrimaveis episodios do passamento da rainha Branca, de Navarra, no castello de Orthez.
O principe de Vianna, D. Carlos, devia ser, por morte de seu pae, herdeiro do throno de Navarra. O principe fallecera, transferindo á irmã, a infeliz Branca, os direitos de successão; mas D. Branca não nascera senão para soffrer. Só uma coroa lhe estava destinada: era a da virgindade perpetua.
A irmã mais nova de D. Branca, D. Leonor, tinha casado com o conde de Foix, e parece que uma das condições secretas do casamento fôra que D. Branca seria entregue ao conde, que a obrigaria a renunciar ao throno ou a fazer-se freira, succedendo portanto D. Leonor ao rei, seu pae, logo que elle morresse.
O rei de Navarra não duvidou sacrificar a filha ao apoio que, em troca, o conde de Foix lhe promettia dar contra o rei de Castella, e achando-se com a infeliz Branca em Olite convidou-a a passar com elle os Pyrenéos, sob pretexto de que projectava casal-a com o duque de Berri, irmão do rei de França.
Sabia Branca o que se passava, e recusou-se a ir, allegando ao pae, segundo a expressão de Zurita, que não queria ser homicida de si mesma. O rei arrancou então a mascara, e obrigou-a a partir á força, bem guardada por pessoas da sua confiança. Poucos dias depois, o rei de Navarra contratava definitivamente com o conde de Foix em Olite.
D. Branca foi encerrada no mosteiro de Roncesvalles, e d’ahi teve meio de protestar contra a usurpação que se lhe queria fazer, declarando que por vontade propria declinaria os seus direitos no rei de Castella, que a havia repudiado!
O protesto inquietou a côrte de Navarra, como era natural, e a mallograda rainha foi mandada transferir para S. João Pied de Port.
Comprehendeu D. Branca que não se contentavam com usurpar-lhe os direitos ao throno, mas que tambem a sua vida corria risco, e pediu a Henrique IV, ao conde de Armagnac e ao condestavel de Navarra, que por meio da força defendessem, se tanto fosse preciso, os seus direitos e a sua vida, auctorizando-os a tratarem-lhe casamento com qualquer principe.
Soube, porêm, D. Branca que o rei, seu pae, ia envial-a a S. Pelagio, no Bearn. Então, julgando-se completamente perdida, escreveu a Henrique IV, de Castella, o homem que a havia repudiado, cedendo n’elle todos os seus direitos á coroa de Navarra. Essa carta, que tem a data de 30 de abril de 1462, não póde lêr-se, segundo a expressão de um escriptor hespanhol, sem que se enterneça o coração mais duro. Lafuente, referindo-se á carta de Branca, diz que a infeliz princeza recordava a Henrique IV os antigos vinculos que os haviam unido, e os crueis transes que atravessara desde que fôra repudiada. Segundo Zurita, Branca pedia a Henrique IV que vingasse a sua morte e a do principe Carlos.
A que mãos de poltrão confiava a infeliz senhora tão nobre empresa! Vê-se que a esposa repudiada ficara conhecendo tão pouco o rei como o marido.