Ainda d’esta vez escapou ao laço o pobre rei, porque dois mensageiros, largando a todo o galope, correram a avisal-o do perigo a que se expunha.
Em vista d’este novo desastre, os conspiradores, desfraldando o pendão da revolta, foram acoitar-se em Burgos, e d’ahi formularam claramente as suas accusações contra o rei, enviando-lh’as por carta para Valhadolid. As principaes queixas dos conspiradores eram estas: haver nomeado grão-mestre de S. Tiago Beltrão de Lacueva, com prejuizo do infante D. Affonso, a quem o grão-mestrado pertencia, como filho do rei D. João; ter feito jurar herdeira do throno de Castella D. Joanna, devendo saber que não era sua filha legitima. Os conspiradores concluiam por pedir como desaggravo que o infante D. Affonso fosse jurado herdeiro do throno.
Pela primeira vez era a rainha formalmente accusada de adultera. Até ahi, as murmurações, comquanto geraes, não tinham chegado á ousadia de formular uma accusação categorica, dirigida ao proprio rei. Mas, desde esse momento, as conveniencias respeitosas foram calcadas, e D. Joanna, de Portugal, publicamente accusada de haver dado á luz uma filha de que seu marido não era o pae.
Se o rei D. Duarte fôra ainda vivo, morreria de pesar, elle, que, no Leal conselheiro, escrevia a respeito da honestidade das mulheres portuguezas: «... ao presente eu não sei, nem oiço mulher de cavalleiro, nem outro homem de boa conta em todos meus reinos, que haja fama contraria de sua honra em guarda de lealdade; e passaram de cem mulheres, que el-rei e a rainha, meus senhores padre e madre, cujas almas Deus haja, e nós, casamos de nossas casas, e prouve a Nosso Senhor que alguma, que eu saiba, nunca falleceu em tal erro dês que foi casada...»
Pois era justamente contra uma dama portugueza, não simples esposa de cavalleiro, mas rainha de Castella pelo casamento, e filha de rei, de um rei que era ao mesmo passo o auctor do Leal conselheiro, era contra D. Joanna, de Portugal, que os revoltosos de Burgos publicamente fulminavam a accusação de adultera, barregã de um valido, como outra rainha de Castella, tambem portugueza, cujo amante, o pae de D. Leonor Telles, fôra assassinado, por ordem de Pedro, o Cruel, quando á sahida da cidade de Tóro dava o braço á rainha.
Henrique IV, de instinctos menos carniceiros, não cuidou de assassinar ninguem. Até, pelo contrario, se mostrou zangado com o bispo de Cuenca por lhe aconselhar que punisse severamente os revoltosos.
O pobre rei Henrique sanccionou a sua propria deshonra tão publicamente quanto a accusação o fôra, concedendo uma entrevista aos conspiradores entre as villas de Cigales e Cabezon, e accedendo a todas as imposições que na entrevista lhe foram feitas.
Obrigou-se o rei de Castella a entregar ao marquez de Vilhena o infante D. Affonso, seu irmão, para que fosse jurado herdeiro e successor dos reinos, com a condição de casar com a princeza D. Joanna; a fazer com que Beltrão de Lacueva resignasse o mestrado de S. Tiago em proveito do infante D. Affonso, e a nomear uma deputação de cinco membros que, reunida em Medina del Campo, regularia todas as differenças entre o rei e os dissidentes, que constituiam a liga revolucionaria.
Assim aconteceu. D. Affonso foi jurado legitimo successor do reino; Beltrão de Lacueva renunciou ao mestrado, mas o rei fel-o, em compensação, duque de Albuquerque, doou-lhe varias villas, e arbitrou-lhe uma renda sobre outras villas; finalmente, o rei nomeou os membros da deputação, que lhe competia nomear, para que funccionassem com os membros eleitos pela junta.
Desde este momento estava reconhecida por Henrique IV a illegitimidade de D. Joanna, a infeliz princeza para quem a vida tão tempestuosa amanhecia, e a deshonra da rainha sua mãe.