Não deixa de ser altamente comica esta camaradagem do rei e de Beltrão, transidos de medo, no recinto pouco convidativo de um retrete, que, ainda assim, não deixaria de convir-lhes na occasião. De mais a mais, ha o que quer que seja de latrinario na baixeza do rei, lançado nos braços do homem que a voz publica indigitava como pae da infanta D. Joanna. Porisso, o logar era tão conveniente como proprio. O acaso tem ás vezes razão.
Lafuente prosegue:
«Os que de tão tumultuosa maneira haviam invadido os aposentos reaes, eram os condes de Benavente e de Paredes, o filho do almirante e outros cavalleiros de conta, que, capitaneados por o de Vilhena, iam com animo de apoderar-se dos infantes, e de prender o rei e D. Beltrão de Lacueva. O de Vilhena entra só ao esconderijo do rei e, com a sua doble e arteira politica, finge-se indignado d’aquelle insulto, e, como quem zomba da debilidade do rei, excita-o a que não deixe de punir. «Parece-vos bem, marquez, disse-lhe o rei, isto que se fez ás minhas portas? Pódes estar certo de que já não tenho paciencia para mais.» Mas o resultado limitou-se a uma esteril e passageira indignação, e a sahir o de Vilhena com os seus impunemente do palacio, talvez por lhe não convir então levar as coisas mais longe.»
Henrique IV ou não conhecia o despeito de João Pacheco, vendo-se supplantado pelo amante da rainha, ou, aconselhado por Beltrão, em quem agora cegamente confiava, queria ageitar ao marquez de Vilhena occasião de se comprometter e perder-se.
Mas Beltrão de Lacueva, se assim aconselhava o rei, devia lembrar-se de que entre Henrique IV e João Pacheco havia antigos laços de suspeitosa amizade. Portanto, devia tambem metter em linha de conta esse factor importantissimo.
E, com effeito, um novo acontecimento veio demonstrar a sua importancia.
Estavam em Segovia o rei, a rainha, a princeza das Asturias, os infantes e Beltrão. Os conspiradores tinham-se combinado com um capitão da guarda real e sua mulher, dama da infanta D. Isabel, para que por uma porta secreta os introduzisse nos quartos da familia real, que seria presa, e do favorito, que seria assassinado.
O marquez de Vilhena entretinha o rei n’essa noite, conversando serenamente com elle, á espera que a conspiração rebentasse. Mas a conspiração descobriu-se, e Henrique IV contentou-se com ouvir sobre o caso o marquez de Vilhena, que se fingia profundamente indignado contra os condes de Placencia e Alba, co-réos na conspiração mallograda.
Entretanto, o rei, sem forças para romper abertamente com o seu antigo companheiro de prazeres, ia guindando ás supremas honras o amante da rainha. Fizera-o, finalmente, grão-mestre de S. Tiago. Beltrão de Lacueva attingia assim a alta posição social que D. Alvaro de Luna deixara devoluta.
João Pacheco revoltava-se cada vez mais, como valido decadente. Fizera com que os condes de Placencia e Alba pedissem uma entrevista ao rei entre S. Pedro de las Duenhas e Villacastin, sob pretexto de que queriam reconciliar-se com o marquez de Vilhena, e ouvir o rei sobre esse assumpto. Henrique IV annuiu com a maior docilidade, fazendo-se acompanhar por Beltrão de Lacueva, pelo bispo de Calahorra, por outros fidalgos mais, pela sua guarda real e por um esquadrão de quinhentas lanças.