O que tinha feito, entretanto, por desaffrontar-se, a rainha de Castella, D. Joanna, cuja honra era publicamente conspurcada? O que fizera, por vingar sua irmã, o rei Affonso, de Portugal?
D. Joanna avistou-se com seu irmão na provincia da Beira Baixa. Diz o padre Flores que a infanta D. Isabel acompanhou a rainha, e que a Beltraneja ficara, entretanto, a bom recado, no alcaçar de Segovia. O logar marcado para a entrevista foi a cidade da Guarda. Ahi expoz a rainha de Castella a triste situação em que se encontrava, e as difficuldades politicas em que seu marido se havia lançado. Como era natural, o primeiro movimento de Affonso V foi de commiseração pela irmã, mas, posto o negocio em côrtes, que na Guarda se reuniram, e a que D. Joanna assistiu em nome do rei, seu irmão, a volubilidade de Henrique IV não pesou menos na balança dos tres estados do que a deshonra da rainha de Castella: «foi el-rei aconselhado, diz Pina, que em tal discordia e empresa nem lianças se não entremettesse, da qual coisa com a mais honestidade que poude se excusou.»
E os factos occorridos em Castella vieram justificar este prudente conselho dado a Affonso V.
O rei Henrique, desprezando os fortes elementos de resistencia que o paiz lhe offerecia, licenciou os seus soldados, que se retiraram indignados. Fiado nas promessas do marquez de Vilhena, que, aliás, não cuidou de cumpril-as, mandou buscar a Beltraneja a Segovia, fel-a entrar em Samora debaixo de pallio, e reuniu-se depois com a rainha e com a infanta D. Isabel, que regressavam de Portugal, em Simancas.
Toda Castella se resentia d’estes acontecimentos, a anarchia ia de foz em fóra, os malfeitores assolavam as povoações que, para resistir-lhes, e proteger-se a si proprias, faziam hermandad.[8] Porêm, no meio d’esta degringolade geral, custa a crer que ainda houvesse quem defendesse o rei! Pois havia. Valhadolid, aproveitando uma sahida do almirante D. Fradique com o infante D. Affonso, e a sua gente, sobre Arévalo, tomou de novo voz por D. Henrique, que logo se foi lá metter, sendo recebido com festas.
Henrique IV não se fortalecia com estas demonstrações de agrado. A sua fraqueza de espirito era tamanha, que acceitava todas quantas propostas os adversarios lhe fizessem.
Vejamos. Pedro Giron, mestre de Calatrava e irmão do marquez de Vilhena, porventura já cansado de andar agitando a Andaluzia contra o rei, propoz a Henrique IV, por intermedio do arcebispo de Sevilha, fazer pazes com elle, obrigando-se a servil-o com tres mil lanças, a emprestar-lhe sessenta mil dobras e a restituir-lhe o infante D. Affonso, sob a humilhante condição de que lhe seria concedida em casamento a infanta D. Isabel.
Prompto! Henrique IV acceitou logo a proposta. Deu de mão a Beltrão de Lacueva, e chamou para a côrte o mestre de Cacalatrava, tratando ao mesmo tempo de obter de Roma a dispensa para que elle pudesse casar, visto ser grão-mestre de uma ordem religiosa.
Mas Henrique IV esquecia-se de que sua irmã Isabel, comquanto menina de dezeseis annos, não era tão malleavel como elle. Mais nova ainda, depois da entrevista de Guadalupe, oppuzera resistencia a casar-se com Affonso V, allegando que era precisa licença das côrtes. Agora, mais desenvolvida a sua energia de castelhana, não deixaria de oppor uma seria resistencia, tanto mais que tinha a seu lado uma dama dedicadissima, D. Beatriz de Bobadilha, a qual, tirando um punhal, dissera uma noite á infanta: «Primeiro o cravarei eu no coração do mestre de Calatrava.»
Pedro Giron, chamado pelo rei, apressou-se a jornadear de Almagro para Madrid, com grande sequito de cavalleiros. Mas ao segundo dia de Jornada adoeceu gravemente em Villarrubia, e a breve trecho morreu com pouca edificação christã. Morreu raivando e praguejando, por não chegar a ver realizado o seu ideal.