Frei Francisco Brandão diz que, não obstante a tença, D. Philippa passara a vida com não grande cabedal, e que D. Affonso V bem pudera ter remedeado a prima que recommenda. Como quer que seja, seu sobrinho D. João II doou-lhe uma parte da renda da Villa de Alcolea de Sinca, no principado da Catalunha.

Depois da morte da rainha D. Isabel, D. Philippa esteve parte do tempo em Coimbra, em casa de sua mãe, a viuva do infante D. Pedro; mais tarde veiu para Lisboa onde acompanhou a educação de sua sobrinha D. Joanna.

Havendo-se recolhido ao mosteiro de Odivellas, sem que aliás professasse, foi de romaria a S. Tiago de Galliza, e morreu em Portugal no anno de 1497. Jaz na sacristia de Odivellas.

Como iamos dizendo, esta senhora dera voto na questão das terçarias; talvez lhe fosse solicitado por sua prima D. Beatriz. Frei Francisco Brandão encontrou o documento, que nos transmittiu o voto de D. Philippa, na torre do Tombo, entre os papeis de Fernão de Pina. Publicou-o com o seguinte titulo: Conselho e voto da senhora Dona Philippa filha do infante Dom Pedro sobre as terçarias, e guerras de Castella. Com uma breve noticia d’esta princeza, dirigido a el-rei Dom João IV, Nosso Senhor. Lisboa, 1643.[64]

D. Philippa lamenta que o principe D. Affonso esteja nas terçarias com prejuizo para a sua educação. Não aconselha que o tirem para fazer guerra a Castella, mas não quer isso dizer que deixe de reconhecer as vantagens de Portugal em qualquer lucta armada com Castella, tiradas da historia do passado. Entende que um portuguez ha de valer sempre vinte castelhanos com a ajuda de Deus. Recorda que se Affonso V foi a Touro, varios castelhanos lh’o pediram. E remata dizendo: «E assi concludo: sua paz deve ser desejada com grande razom, mas sua guerra que Deos nos goarde, nem deve ser mui temida, quando sem causa procurarem metella em obra, pois Deos, justiça, verdade, razoens humanaes som em nossa ajuda, e a elles contrarios.»

Emquanto variavam os pareceres a respeito das terçarias, D. João II enviava terceira embaixada a Castella, encarregada de dar satisfacções e desculpas aos soberanos d’aquelle paiz, que trataram de mostrar-se satisfeitos com ellas, porque o seu maior desejo era tambem verem fóra das terçarias a infanta D. Isabel, receosos de que a sua vida pudesse ser penhor de alguma nova combinação politica. Ficou então assente que as terçarias se desfariam, e que o principe D. Affonso casaria não com a infanta D. Isabel, mas com a infanta D. Joanna, e que se lhe daria maior dote por estar esta infanta mais afastada na linha de successão de Castella. Outrosim ficou combinado que os reis de Castella mandariam na proxima Paschoa embaixadores a Portugal para se tratar definitivamente da resolução d’estas combinações.

A familia real estava em Almeirim n’essa occasião. A rainha teve ahi um mobito, e por este motivo a foram visitar muitos fidalgos, entre os quaes o duque de Vizeu, seu irmão, e o de Bragança, a quem D. João II recebeu de boa sombra. Não obstante, um dia chamou-o de parte á capella do paço, e, na presença do bispo de Lamego, lhe disse que estava inteirado de que elle tinha ligações suspeitas com Castella, mas que se essas combinações eram filhas de um proposito errado, estava disposto a perdoal-as e esquecel-as. Lembrou-lhe as obrigações que o duque devia á memoria de D. Affonso V, de quem havia recebido largas honras, e patrimonio. E ainda que se julgasse aggravado com o degredo do marquez, e a entrada dos corregedores em suas terras, devia ser o primeiro a querer dar um exemplo de obediencia e de respeito ao rei.

O duque de Bragança imaginou que D. João II se deixaria embalar pelas suas palavras; que o supporia um inimigo que retirava, que desalentava na lucta; e, cheio de hypocrisia, respondeu affirmando os seus sentimentos de estima e gratidão ao chefe do Estado.

Enganava-se.