Na jornada de Moura para Evora, onde estava a côrte, o principe D. Affonso foi hospedado em Portel pelo duque de Bragança, que lhe fez muitas honras. Fóra dos muros de Evora o rei sahiu a receber o principe, que vinha acompanhado pelo duque de Bragança e pelo de Vizeu. A gente que acompanhava o rei estava toda armada, porque D. João II ia em duvida sobre se logo prenderia o duque ou não.

Mas como o duque lhe parecesse tranquillo e nada desconfiado, D. João II adiou o seu proposito.

O rei mostrava-se extremamente alegre e despreoccupado. Houve em Evora grandes festas pela recepção do principe e da infanta, e o rei em todas tomou parte serenamente. Pelo que o duque, comquanto avisado pelo marquez seu irmão e por outros fidalgos, para que desconfiasse do rei e se salvasse, deixou-se ficar. Metteu-se de permeio o dia de Corpus Christi, em que o rei continuou a mostrar-se despreoccupado, mas na sexta-feira, indo o duque ao paço despedir-se do rei, achou-o despachando com os desembargadores. D. João fez sentar o duque junto de si, emquanto dava o despacho. Findo este, o duque conversou por algum tempo com o rei, e aproveitou a occasião para pretender justificar-se de varios aleives que lhe assacavam contra elle, pedindo-lhe que se informasse da verdade. D. João II, depois de o ter ouvido, disse que aquella casa já ia estando escura, e que, porisso, era melhor subirem á sua guarda roupa. Subiram, e o rei disse então que folgava de o ouvir fazer tal requerimento, e que effectivamente ia apurar a verdade, mas que julgava melhor que o duque se conservasse alli, até que tudo estivesse apurado.

O rei, sahindo, deixou por guardas ao duque, Ayres da Silva, camareiro-mór, e Antão de Faria, camareiro.

Então, o desanimo do duque foi grande. Ayres da Silva quiz consolal-o com palavras banaes, mas o duque respondeu-lhe: «Senhor Ayres da Silva: um homem tal como eu não se prende para o soltar.»

Entretanto, D. João II fazia reunir em outra sala do paço os senhores, principaes auctoridades e lettrados, aos quaes expoz os aggravos que tinha do duque, lendo serenamente as cartas e instrucções apprehendidas.

Logo que a noticia se espalhou na cidade, o povo correu aos pateos e terreiros do palacio, protestando a el-rei a sua lealdade, e pedindo justiça contra os que contra a sua vida houvessem attentado.

No conselho decidiu-se que se segurasse bem a pessoa do duque; que a coroa tomasse conta dos seus castellos e terras, e que se notificasse o caso aos reis de Castella, sem comtudo alludir á causa da prisão.

Tão profunda impressão causou em todo o paiz a prisão do duque, que os alcaides dos seus castellos logo os entregaram a uma simples ordem do rei. Esta observação, que Garcia de Rezende faz, pinta bem qual era o prestigio da monarchia, e o fanatismo do povo pela pessoa de D. João II.