Posta a questão do divorcio no fôro ecclesiastico, pronunciou sentença de nullidade Luiz da Cunha, que governava a egreja de Segovia. O processo subiu por appellação a Roma, e o papa Nicolau V delegou seus poderes em Affonso Corrilho, arcebispo de Toledo, que confirmou a sentença.
D. Branca de Navarra foi, pois, despedida. Sahia de Castella como entrara: sempre noiva. Atraz d’ella, sobre a cauda roçagante do seu véo branco, arrastavam-se epigrammas grosseiros, satiras mordazes. Diz Zurita que de Italia lhe mandavam os embaixadores aragonezes remedios para combater a esterilidade, já depois de repudiada, como se foram para cural-a de uma febre quartã! E Castella, vendo moribundo o seu rei, tinha de acceitar um principe devasso e impotente, que lhe succedia.
Em 1453 morria D. João II, e o principe descasado empunhava as redeas do governo. A hereditariedade punha a coroa na cabeça de um mau filho e de um mau esposo, que de mais a mais se affirmara poltrão desde os primeiros tempos do seu reinado.
Propoz-se D. Henrique renovar a guerra contra os moiros de Granada. Preparou um exercito formidavel, fez-se rodear de uma guarda distincta composta de tres mil e seiscentas lanças, a flor da nobreza de Castella; porem ao approximar-se da vega de Granada deu ordem para que se evitasse todo o encontro com o inimigo. O exercito ficou descontentissimo, chegou mesmo a lavrar entre elle o pensamento de se apoderar da pessoa do rei, mas um filho do marquez de Santilhana avisou da conspiração Henrique IV, que se retirou apressadamente para Cordova, e d’ahi para Madrid.
Henrique IV gostava da guerra... platonicamente, como das mulheres. Lisonjeava-o ver-se commandando um poderoso exercito no meio da floresta scintillante das lanças da sua guarda, mas a respeito de dar batalha, nada! Amava muito a vida para arriscal-a; apenas, como hypocrita que tambem era, dizia que por amar a vida dos outros os não queria sacrificar.
Os invernos passava-os na côrte, ou nas cercanias de Madrid em festas venatorias. A caça era o seu fraco e o seu forte. Quando a primavera chegava, montava a cavallo, cingia a espada impolluta, e ia fazer um passeio de recreio, com o seu exercito, até á vega de Granada. As vezes, por distracção, ia talando e incendiando os campos na passagem.
A veiga de Granada era então muito falada em trovas e praticas. No Cancioneiro, de Rezende, o poeta Nuno da Cunha, enfadado de tanto ouvir falar na veiga de Granada, diz a Henrique de Almeida, que regressava de Castella:
Da Veiga lá de Granada
e das estejas da guerra
vos nam ey já de ouvir nada.