Um anno, alguns jovens cavalleiros entraram em combate por sua conta e risco. No recontro, ficou morto Garcilaso de la Vega. O rei agastou-se, e então teve uns assomos ridiculos de traga-moiros: que incendiassem, que devastassem tudo. O emir Aben Ismail viu-se forçado a pedir treguas, mas a respeito de dar batalha campal, nada; Henrique IV continuava a amar platonicamente a guerra... como as mulheres.
Todas as phantasias poderia ter um rei impotente, menos a de tornar a casar. Pois teve-a Henrique IV, tão extravagante era a sua cabeça. E lançou as vistas para a infanta D. Joanna, de Portugal, sua prima, princeza formosissima, a cujos dotes de corpo e de espirito todos os historiadores castelhanos rendem encomiastica homenagem.
Mas Henrique IV tinha o seu pensamento. Segundo Lafuente, talvez quizesse desmentir a fama de impotente. Agora o que se não chega a perceber é o pensamento a que cedeu Affonso V, dando a mão da princeza ao primo de Castella, que tinha como marido os peores precedentes d’este mundo.
É verdade que as condições do casamento eram vantajosas para Portugal, porque Henrique IV contentava-se apenas com a pessoa da princeza, diz Sousa na Historia genealogica. Em vez de pedir, offerecia como arrhas vinte mil florins de oiro do cunho de Aragão, sendo Ciudad-Real a hypotheca proposta e acceita; e mais as rendas da villa de Olmedo, para ajuda da despesa da casa da infanta, e, para o mesmo fim, a annuidade de milhão e meio de maravedis de moeda corrente.
Affonso V não deu dote á irmã, a qual, porém, foi grandemente corrigida da sua pessoa; custou tudo, até ser entregue a el-rei de Castella, trinta mil dobras.[2]
Nas capitulações, que se fizeram em Lisboa a 22 de janeiro de 1455, presentes, de um e outro lado, Affonso V e o capellão-mór de Henrique IV, foi estipulado que a infanta poderia fazer-se acompanhar de doze damas portuguezas, uma dona, uma camareira, e todas as mais pessoas que quizesse, obrigando-se o rei de Castella a remuneral-as conforme a sua jerarchia.
Havia-se ajustado nas capitulações, que a infanta seria entregue na fronteira n’um periodo de tempo não superior a oitenta e um dias depois dos desposorios.
Cumpriu-se o contracto, e a infanta partiu, sendo acompanhada pela condessa de Athouguia, D. Guiomar, e pelo conde D. Martinho, seu filho.
Em Lisboa fizeram-se festas, segundo diz Pina, sem comtudo as especificar, e, quando a nova rainha de Castella passava pela Landeira, em direcção a Elvas, realizaram-se ahi justas em sua honra.