Em Badajoz era D. Joanna esperada com luzido sequito pelo duque de Medinacidonia. D’alli seguiram para Cordova, onde o rei estava, e onde os noivos receberam a benção nupcial (maio de 1455).
De Cordova passaram a Sevilha, e ahi houve cannas, justas, toiros, e um torneio de cincoenta por cincoenta, de que foram chefes o duque de Medinacidonia e o marquez de Vilhena.
As festas da côrte, a que Henrique IV se abandonava n’um sybaritismo insaciavel de testa coroada, redobraram de movimento e esplendor. Ora em Madrid, ora em Segovia, sitios predilectos d’este bom rei, tão madraço como os ultimos da raça merovingia, Henrique IV aturdia a noiva com festas sumptuosas porventura no empenho de lhe fazer esquecer as desillusões da alcova real.
A pobre princeza cahiu de chofre n’este mundo de tentações e perigos que ella desconhecia, que não tinha sido o da sua educação. O luxo e a galanteria ostentavam-se em requintes de fascinação, estonteavam como filtros allucinantes todas as cabeças, incluindo as mitradas.
O rei era o primeiro a dar o exemplo de dissipação.
De Henrique III, conta o nosso padre Manuel Bernardes, na Nova floresta, que, vindo esfomeado da caça, não tivera que comer certo dia. Disse-lhe o comprador que já não havia fornecedores que quizessem continuar a fiar para a real senhoria. O rei despiu o gabão e mandou-o empenhar por um pouco de carneiro. Os criados murmuraram do caso, extranhando que o rei tivesse fome e os fidalgos se banqueteassem lautamente, como n’essa mesma noite estava acontecendo no palacio do arcebispo de Toledo.
Henrique III, como isto ouvisse, sahiu disfarçado e entrou occultamente no paço archiepiscopal, ao tempo que os grandes da côrte conversavam jactanciosamente sobre as rendas da corôa, que cada um lograva. O rei recolheu-se a palacio, e mandou postar n’um dos pateos interiores um troço de seiscentos homens armados.
Logo que luziu a manhã, expediu recado aos grandes senhores para que sem demora lhe viessem falar, dizendo-se doente, e desejoso de fazer testamento. Os fidalgos acudiram em chusma, e foram isolados n’uma sala onde longo tempo esperaram.
Finalmente, appareceu o rei, de aspecto terrivel, e espada em punho; e, sem mais tir-te nem guar-te, perguntou a cada um de per si quantos reis de Castella conheciam. Uns disseram que tres, outros que quatro, e ainda outros que cinco. O rei fingiu-se admirado. «Sendo eu mais moço que todos vós, replicou elle, conheço mais de vinte.» Os fidalgos responderam que não entendiam sua alteza. Então Henrique III explicou, que todos elles eram reis, porque se banqueteavam todas as noites, ao passo que elle, se quizera comer carneiro, tivera de empenhar o gabão. E acabou gritando: «Olá, gente da minha guarda!»