Os partidarios da Beltraneja viram na desastrosa morte do principe D. Affonso o dedo de Deus, o castigo do céo. Dil-o claramente Duarte Nunes de Leão na Chronica de D. Affonso V:

«... não tardou, que quando o principe D. João, d’ahi a pouco já feito rei, casou o principe com tantos gostos, e tantas esperanças, no meio dos contentamentos, e das maiores festas do mundo, viu seu unico filho, que elle tão ternamente amava, morto, e arrastado de um cavallo, á vista da mesma senhora D. Joanna, que do mosteiro o podia ver deitado em uma pobre cama de palha de um pescador, onde acabou... tomando Deus, segundo a todos pareceu, por aquella afflicta mulher a vingança.»

Em verdade, dadas as crenças supersticiosas da epocha, tudo fazia acreditar que a morte do principe D. Affonso fôra a justa punição dos repetidos sacrificios impostos a D. Joanna, principalmente por D. João II. Em Santarem vira ella cahir aos pés do altar os seus formosos cabellos, e deante de si o vulto sereno e frio de D. João; agora, tambem em Santarem, era o rei que chorava deante do cadaver do filho, como se a Providencia houvesse querido vingar o passado na pessoa innocente do principe.

«Nem os reis de Castella, prosegue Duarte Nunes, ficaram depois sem seu quinhão de castigo; porque o seu filho varão, unico herdeiro de tantos reinos, na flor de sua edade, já casado, sem deixar successão, quasi no tempo em que com a senhora D. Joanna seus paes o prometteram casar, falleceu... E a princeza D. Isabel, filha maior dos dictos reis, cortados seus cabellos, e vestida de pannos de burel, triste e anojada, se viu em termos de tomar por vontade a vida, que á senhora D. Joanna fizeram tomar por força, se com pregações a não converteram; mas sua vida foi de pouco tempo.»

Tambem Ruy de Pina, em linguagem dulcificada por toques de maviosa tristeza, procura pôr em evidencia o castigo do céo, vendo resvalar ao tumulo os primogenitos de Portugal e Castella, e trocados os brocados ricos, e hollandas delgadas que trouxera a infanta D. Isabel, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo vestida, depois da morte de D. Affonso; nem ficaram por cortar seus cabellos doirados com accidental proposito de religião.

A punição parecia haver sido ordenada em identicas circumstancias do delicto. Nem o episodio dos cabellos falta; em Santarem, as duas primas houveram de despojar-se das suas tranças, uma para tomar o véo de monja, a outra para tomar o véo de viuva. É o dedo de Deus! dizia-se então. E a phrase ficou como uma synthese dos factos, que em verdade parecem providencialmente dispostos.

Passaria no forte espirito de D. João II, alguma vez, a idéa de que a morte de seu filho fôra realmente um castigo do céo?

Eis o que ninguem póde saber ao certo.

A verdade é que o rei sustentava, com grandeza, a casa da Excellente Senhora, no seculo. Nas Provas da historia genealogica[70] vem a relação das pessoas de que se compunha a casa de D. Joanna, e por essa relação se vê que não tinha menos de oito damas, nove moças de camara, sendo duas moiras, quatro donas, oito capellães e cantores, seis moços de capella, sete moços da camara, quatro estribeiros, dois reposteiros, afóra veador, contador, thesoireiro, comprador, mantieiro, cozinheiro, lavadeira, alfaiate, physico e cirurgião.

A dotação de D. Joanna, consignada no orçamento geral do Estado (despesa ordinaria) em 1478, era de 1:400$000 réis.