Onde habitava em Lisboa D. Joanna? Não pudemos averiguar. Sabe-se apenas que no reinado de D. João II residia no Paço do Castello, e que ahi falleceu, se bem que o documento d’essa epocha, a que nos encostamos, e a que ainda teremos de alludir, diga: onde ora poisa a serenissima senhora, o que faz suppor que nem sempre residira alli quando estava fóra do convento. Mais adeante veremos que houve idéa de se construir um palacio para sua residencia.
Como se sabe, D. João II, morto o principe D. Affonso, empregou os maiores esforços para deixar por herdeiro da coroa D. Jorge de Lencastre, seu filho natural.
Em segredo mandou a Castella pedir para elle a mão da filha mais nova dos reis catholicos, D. Catharina, encarregando d’esta missão Lourenço da Cunha. Com este casamento julgava D. João II garantir melhor a posição futura do bastardo.
Quando Lourenço da Cunha chegou á côrte castelhana, estava D. Fernando doente, mas a rainha despachava os negocios. Foi, pois, ella que recebeu o embaixador portuguez, o qual apresentou o pedido de D. João II. A rainha respondeu, que sua filha não, mas que el-rei seu senhor tinha uma filha bastarda, que lhe daria. Então Lourenço da Cunha replicou altivamente:
—Senhora, el-rei meu senhor não pretende tanto aparentar-se com el-rei D. Fernando como com vossa alteza; porisso, se vossa alteza tem outra filha bastarda, elle a tomará para seu filho.
Quando Lourenço da Cunha recolheu a Portugal, D. João II premiou-lhe o procedimento, fazendo-lhe mercê de uma commenda de Beja, Serpa e Moura, tão vasta, que depois poude ser dividida em tres.
Todos estes factos não passavam de leve pelo espirito da rainha D. Isabel, sempre receosa de D. João II. Apesar da ousada resposta do embaixador portuguez, e do acolhimento que lhe fez D. João, as relações entre os dois paizes não foram interrompidas; pelo contrario, pensou-se em seguir, por parte de Castella, o conselho do cardeal de Hespanha, de que convinha casar agora mais do que nunca o principe D. João com a Excellente Senhora. Em 1494, Fernando e Isabel não duvidavam assignar o celebre tratado, feito com D. João II, sobre o que tocaria a cada uma das duas coroas do que estava por descobrir no mar oceano.[71] E um anno depois, quando D. João II morria, porventura envenenado por mestre João de Mazagão combinado com o duque de Beja,[72] a rainha Isabel de Castella resumia n’uma só phrase toda a biographia d’esse rei cujo caracter de ferro ella perfeitamente conhecera: «Morreu o homem!» exclamara D. Isabel ao saber do fallecimento de D. João II.
Pois bem! Elle, o forte, o homem, não esqueceu no seu testamento a fragil creatura que dobrara, como um vime, ao sabor da sua vontade poderosa.
Uma disposição testamentaria diz: