D’esta vez a Providencia permittiu que D. Maria vivesse, e désse á luz um verdadeiro enxame de filhos. É que a Providencia parecia reservar para D. Joanna, a pobre Beltraneja, uma compensação muito maior, uma desforra completa e cabal.
Oiçamos um escriptor hespanhol, Clemencin, no mais completo estudo que se tem escripto em Hespanha ácerca dos reis catholicos. O testemunho é, portanto, de todo o ponto insuspeito; porisso o reproduzimos na integra:
«Foi opinião de alguns, segundo Zurita, que antes da rainha D. Isabel fallecer, seu marido lhe prometteu, sob juramento, não casar outra vez. Sem embargo, a pouco trecho da sua morte, entabolou o rei viuvo esta negociação (tratar do seu casamento com a Excellente Senhora), enviando para ella a Portugal D. Rodrigo Manrique. O objecto de tão extranha solicitude, que desde logo afearam os parciaes do rei D. Philippe, o Formoso, e que, como adverte o mesmo Zurita que não póde suspeitar-se de desaffecto ao rei catholico, se divulgou mais do que este quizera, era patente e manifesto: tomar a parte dos direitos de D. Joanna, fazel-os valer contra os filhos que tinha tido de sua primeira mulher, despojal-os da herança de Castella, e vingar-se assim de Philippe e dos grandes castelhanos, que no maior numero preferiam o partido do genro ao do sogro.
«São incalculaveis os disturbios, guerras civis e damnos que teriam resultado d’este projectado casamento, se se houvesse realizado; mas por fortuna de Hespanha, D. Joanna não deu ouvidos á proposta do rei D. Fernando, fosse aversão ao estado de matrimonio ou á pessoa do pretendente, a quem não podia deixar de olhar como um dos principaes auctores de suas desgraças. Interveiu provavelmente na resolução de D. Joanna o influxo da rainha de Portugal, D. Maria, a quem não podia agradar este casamento, não só em respeito á memoria de sua defuncta mãe, D. Isabel, nem em attenção a sua irmã que tinha succedido nos reinos de Castella, mas tambem em consideração aos seus proprios direitos e aos de seus filhos.
«Mui curto espaço de tempo deveu medear entre o projecto de casamento do rei catholico, e a morte de D. Isabel, occorrida a 26 de novembro de 1504. Para janeiro seguinte convocou côrtes o rei D. Fernando, na cidade de Touro, cuja proximidade de Portugal, e a maior facilidade de negociar e ajustar d’ahi o novo enlace, foram, segundo as apparencias, a causa da escolha do sitio. O certo é que, tendo-se encerrado as côrtes em meado de fevereiro, o rei, por seguir mais de perto as negociações com Portugal, como diz Zurita, continuou em Touro até ao fim de abril, em que se retirou para o interior de Castella; e isto denuncía que já então estava desvanecido e mallogrado o negocio.»
Em verdade, a escarnecida Beltraneja, a chasqueada Monja, não poderia imaginar mais completa desforra, do que a de ver humilhado a seus pés o rei catholico, o viuvo de Isabel, pedindo-lhe que consentisse em desposal-a!
A grandeza da reparação só é comparavel á grandeza do desdem com que essa solicitação foi recebida, tanto mais que o espirito de D. Joanna não conseguiu nunca transigir com a alienação dos seus direitos, reaes ou suppostos, com a abdicação de todas as mundanidades ostentosas, de todas as honras e titulos com que julgava poder condecorar-se.
Ella considerava-se rainha, ainda quando rejeitava a mão de um rei; ella continuava a assignar-se rainha, ainda quando se recusava a subscrever um contracto de casamento com o viuvo de Isabel a Catholica.
A sua nobre altivez levou-a por certo a recusar essa união, a preferir conservar-se solteira, rainha sem reino, e moça de trinta e tres annos apenas.
Vira desdenhosa afastar-se o vulto de mais esse noivo, como já tinha visto esfumarem-se no horizonte longinquo das suas recordações os vultos de tantos outros noivos, o infante D. Affonso, de Castella, o duque de Guiena, D. Fradique, de Napoles, D. Henrique, de Aragão, D. Affonso V, de Portugal, o principe D. João, de Castella, o rei de Navarra, Francisco Phebo!..