N’uma mensagem ao rei, appensa ao testamento, D. Joanna recorda que fôra requerida para casar, e parece enviar-lhe documentos relativos a essas negociações nupciaes. Dizem talvez respeito ao casamento que lhe propuzera o viuvo de Isabel a Catholica. Mas, se nos não enganamos, ainda mais uma vez se revela a fidalga altivez de D. Joanna, occultando o nome de Fernando.

Por essa mesma mensagem se vê que o rei lhe havia promettido mandar construir casa propria, que lhe era muito necessaria, e logo, expressão sua.

D. Joanna fez, porem, um segundo testamento, do qual encontramos noticia, em termos que não admittem duvida, na Historia seraphica. É para extranhar que nenhum dos seus biographos mencionasse a noticia a que nos referimos, e pela qual se vê que a mallograda noiva de Affonso V mudara de tenção quanto ao logar que escolheu para sepultura.

«Diziam uns, escreve frei Manuel da Esperança, que estava no sobredicto mosteiro de Santarem (Santa Clara); outros, no de Varatojo, como havia disposto no primeiro testamento, que depois revogou. Porem a todos desenganamos com a luz de uma carta de el-rei D. Sebastião, a qual passou em seu nome a rainha D. Catharina, que governava por elle na sua menor edade, em 18 de fevereiro de 1558. Diz n’ella, que sua tia a Excellente Senhora ordenou por seu testamento, que se dissessem para sempre no mosteiro de Santa Clara, de Lisboa, onde se mandou lançar, e tem sua sepultura, seis missas cantadas em cada anno. E ordena, que a esmola das missas e azeite para as duas alampadas, se pague sempre pela fazenda real. Foi escondido seu corpo dentro do seio da terra em a casa do capitulo, e ainda que depois o trasladaram para sepultura alta, nem porisso (tão esquecida a querem) lhe puzeram ou brazão ou epitaphio, que a dê a conhecer. Só na pedra apparece este numero: 1545; mas não declara se é o tempo da morte, se o da trasladação. Defronte lhe fica uma vidraça, na qual se vêem de pintura as nossas quinas reaes, feita no anno 1541, como ella mesma diz.»[76]

Tão esquecida a querem! pondera frei Manuel da Esperança.

Na sepultura d’essa mulher, que esteve para cingir duas coroas, podendo dizer-se que por alguns dias as cingiu, nem um brazão, nem um epitaphio; apenas uma data, que suppomos ser a da trasladação!..

Ao menos que, depois de tantos baldões, lhe não podiam tolher a paz do tumulo, porto seguro onde os naufragos do mundo logram emfim descançar, por mais que os vivos os esqueçam.

Defronte do sepulcro, uma janella por onde o sol entrava... Bem precisado estava da amoravel visita da luz do céo o cadaver d’essa princeza, que só conheceu na terra a luz sinistra das procellas guerreiras e das tempestades diplomaticas!

Mas o seu destino obedecia a um mysterioso e sinistro mobil, que nem na morte lhe permittia gosar absoluto descanço.

Vê-se pela carta regia de D. Catharina—que todavia não pudemos encontrar na Torre do Tombo, nem nas gavetas, nem na collecção especial, nem no corpo chronologico—que a Excellente Senhora se mandara sepultar na egreja de Santa Clara, de Lisboa.