Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado ao Capitão o cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo National[[53]].{99}

O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho tirára o governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam directa e pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na pessoa do seu mais dilecto amigo o queriam ferir.

Na celebre carta que o infante dirigiu{100} de Coimbra, em 30 de dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:

«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys delles por que lhe esto devesse{101} de ser feito vós sabees; deram-lhe por elles e em especial pollo que agora fez em Ceita, ho gallardam que dam a mim de meus serviços e trabalhos».

Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaro viera de Ceuta, onde praticára novos e gloriosos feitos.

Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em Ceuta. Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha regressado, e por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em Lisboa.

Certamente n'este ultimo anno[[54]] veiu a Portugal Jacques de Lalain, famoso cavalleiro{102} da côrte do duque de Borgonha. Foi recebido pelo joven rei Affonso V e pelo regente D. Pedro com grandes honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora, sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros senhores e cavalleiros portuguezes[[55]].

Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do rei, que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez fizesse armas contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por estreitos laços de parentesco e affecto.

Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches justar, em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro{103} dos mais afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido d'essa honra e gloria.

Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.