«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o deixasse{117} com sua gente alli onde folgaria acabar por seu serviço»[[61]].

Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura a D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.

«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o Conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe commetteria nem ousaria commetter tal cousa, em que ao menos ficava o infante por ser perjuro e fraco»[[62]].

Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma terça-feira, 20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.{118}

O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na historia de Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se no peito do infante, que pouco tempo sobreviveu.

Luiz de Azevedo[[63]], poeta do Cancioneiro de Rezende, põe na bocca do infante moribundo lastimas que talvez lhe atravessassem o pensamento n'essa angustiada hora final:

Nam ha rreynos em Cristãos
que em todos nam andasse,
e que sempre nom achasse
nos rreys d'eles doces mãos;
Fydalguos e cydadaõs
me seruiam lealmente,
e agora cruelmente
me matarom meus yrmãos.

Eu andey per muytas partes
e por outras boas terras,
muyta paz e tam bem guerras
vy tratar per muytas artes.{119}
Mas aqueste dia Martes
foy jnfeles pera mym;
o meu sangue me deu fim
e rrompeu meus estandartes.

Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais leal dos cavalleiros portuguezes.

Ruy de Pina escreve: