«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial, provendo e resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a muitas affrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe disse—Senhor conde, que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto.—E o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado disse ao moço—Cala-te e aqui o não digas a ninguem.—E{120} com isto feriu rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamentor onde sem alguma turvação pediu pão e vinho, de que por esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes era já entrado e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os outros carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria, e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um grande pedaço como mui valente e accordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam trazendo as mãos, e todas suas armas cheias não de seu sangue, mas de muito alheio que{121} espargiu; porque em quanto andou em pé e se poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E emfim vencido já de muito trabalho, e longo cansaço, disse em altas vozes: Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas. E com isto se deixou cair estendido no chão, e uns dizem que disse, ora fartar, rapazes, e outros ora vingar, villanagem. Cujo corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despediu a alma de si para ir acompanhar a do infante como lhe tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era valor d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada. E os outros fidalgos e nobre gente{122} que eram com o infante, vendo tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza das estancias, que lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos, feridos, ou presos não escapou algum».
Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro Vaz de Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse homem extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua vida. Para os livros de educação popular, nenhum exemplo de valor militar e de leal amizade poderá ser mais apropriado do que este.
Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de Alvaro{123} Vaz uma que o chronista aliás não cita. Contam que, embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, na vertigem do combate, pronunciára: «Jantar aqui, ceiar no inferno». Era um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.
Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa. D. Affonso V procurou attenual-a enviando embaixadores ás principaes côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu procedimento.
Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei ultrapassou o respeito devido aos mortos.
O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias. Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle desgraçado principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete partidas do mundo[[64]],{124} ainda depois da morte errou n'uma longa peregrinação, porque os seus ossos foram successivamente trasladados de Alverca (onde o rei receiou que os fossem roubar) para o castello de Abrantes, de Abrantes para o mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa, finalmente, para a Batalha, a instancias da infeliz rainha D. Isabel.
Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça por um dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na esperança de obter mercê[[65]]. Feito pedaços, retalhado de golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre o campo de Alfarrobeira,{125} até que a requerimento de seu irmão bastardo, João Vaz de Almada[[66]], e não sem difficuldade, foi enterrado honradamente na capella de familia.
Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de Lisboa, era chamada dos Abranches (corrupção de Avranches), por n'ella ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.{126}
«Está sepultado—descrevia no seculo XVII o auctor da Historia serafica—no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual se vêem estas letras: Aqui jaz um Christão. Na parede sustentavam dous leões uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam os ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de Almada, os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso tiveram, fóra d'elle fizeram celebre seu nome com muitos feitos cavalleirosos[[67]]. E por quanto uma ruina do tecto a tem feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa do{127} Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta memoria».
Por carta de D. Affonso V, de 10 de outubro d'aquelle anno de 1449, foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios, honras, prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os partidarios do infante que se acharam em Alfarrobeira.