Entre esses estrangeiros a quem devemos ser gratos, avulta, certamente, um compatriota de v., o illustre Ferdinand Denis, que tanto amou, com especial dedicação, o passado de Portugal nas suas gloriosas tradições e nos seus triumphos por mar e por terra, na guerra ou na paz.
Estamos, pois, habituados á sympathia de estrangeiros, e não é, por isso, de estranhar a deliberação de v. Mas é para agradecer e louvar.
Acceitando a missão de auxiliar o nobre{9} alvitre de v., e achando-me collocado em frente do periodo mais brilhante da historia de Portugal, que o infante D. Henrique personifica, lembrei-me de que o assumpto, comquanto vasto, ha de ser amplamente tratado por muitos escriptores portuguezes, que mais ou menos se encontrarão n'um ponto de partida commum: a vida do infante, e a sua influencia na successão dos nossos descobrimentos maritimos.
Assim, pois, pensei que, sendo já conhecida, nas suas linhas geraes, a biographia do infante, eu poderia, sem atraiçoar a intenção de v., tomar outro rumo, estudando, dentro dos estreitos limites de uma carta, a feição proeminente de uma época, de que D. Henrique foi a culminação, mas que se assignalou pelo concurso de um grupo de homens colossalmente prestigiosos.
Como na vida de todos os heroes, ha{10} manchas, claro-escuro na vida do infante Descobridor. Encarado em si mesmo o homem, teve defeitos, commetteu erros, mas não é esta a hora propria para os relembrar. O principe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção benefica na historia da humanidade, e marca o periodo que, elevando Portugal, aproveitou ao mundo todo.
Mas, quanto á época, é justo, sem nunca perder de vista o infante, procurar medir a estatura dos portuguezes do seculo XV, que com elle collaboraram, nas viagens ou nas campanhas, e que constituem os elementos de caracterisação do espirito arrojado, leal, cavalheiresco, épico, dos inexcediveis heroes d'esse tempo.
A alma portugueza era então um mixto de poesia e valor, sobretudo de poesia no valor. Feita de bronze, não conhecia perigos, difficuldades, resistencias. O infante, estimulando a coragem{11} para as emprezas maritimas, era a expressão do sentir de heroes, que avançavam sempre, contra o Mar Tenebroso, contra os moiros, os inimigos exteriores, ou contra as agitações da politica interna, sem medirem os percalços do commettimento.
A pureza dos costumes, nos homens e nas mulheres, dava um como perfume de santidade impeccavel ás ideas e aos sentimentos da época. A religião era mais alguma coisa do que o culto de Deus nos templos: era a lei por onde cada um regia as suas palavras e acções, os seus pensamentos e feitos, nas suas relações com Deus ou com os homens.
O fanatismo religioso levava a vêr inimigos n'aquelles que, não commungando na mesma religião, não poderiam attingir o gráo de perfeição moral em que todas as crenças se purificavam. Era um preconceito do tempo, eram as idéas da época. Mas ha n'esse sentir, que hoje se nos{12} afigura barbaro, uma noção mal comprehendida, posto que sincera, de que o catholicismo era a unica expressão possivel da civilisação dos costumes.
Alongados os descobrimentos maritimos pela costa occidental da Africa, iniciado, com chave de oiro, o periodo dos factos gloriosos, que nos deram farta participação nos progressos da civilisação universal, fechava-se, simultaneamente, a porta do espirito cavalheiresco que dominára o coração dos portuguezes da idade-média.