Depois d'isso fomos guerreiros, mas não eramos já cavalleiros. Fomos ainda conquistadores, mas não eramos já impulsionados por um mobil limpo de ambições mesquinhas.
O joven rei D. Sebastião, voltando da sua primeira jornada a Africa, quiz desembarcar no cabo de S. Vicente, por uma noite de lua, e alli se demorou nove ou{13} dez dias, como elle proprio contou, meditando ambiciosamente na grandeza de uma época, que dos rochedos do Algarve, como uma águia, havia no tempo de D. Henrique arrancado vôo para ir assombrar o mundo inteiro.
Tinha pena o joven e valoroso rei de não ser d'essa época. E com razão. Mas Portugal havia começado a descer: Alcacerquibir, o abysmo cavado pelas mãos do imprudente monarcha, breve se transformaria na sepultura de um seculo de gloria.
Não trarei, meu amigo, novos subsidios á biographia do infante Descobridor, de quem tantas pennas illustres se irão por certo occupar; mas procurarei desenhar, na vasta tela da sua época famosa, o vulto de um homem, que é um elemento importantissimo de caracterisação e de synthese, de um homem sem o qual essa enorme e brilhante conjugação de heroes,{14} apostados em glorificar o nome da patria, ficaria incompleta.
Refiro-me a Alvaro Vaz de Almada, que foi contemporaneo do infante D. Henrique, e que bem se póde chamar o ultimo cavalleiro portuguez.
Herculano escreveu d'elle no Panorama: «D. Alvaro, caindo morto, era o symbolo da cavallaria expirando».
O proprio infante D. Henrique dizia de Alvaro Vaz de Almada que não sómente Portugal, mas tambem toda a Hespanha, podiam ter grande gloria de crear tão famoso cavalleiro.
E o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique de Aragão diziam que tinham encontrado em Portugal bom pão e bom capitão. Bom capitão: Alvaro Vaz.
Tal era o homem.{15}
*
* *