Um, o infante, é a aurora do novo dia que começa a raiar para a humanidade do seculo XV, aurora resplendente de fulgurações prismaticas, de arreboes dourados, de rosicler cambiante.
O outro, o conde, é o occaso da idade-média, o sol-pôr de um seculo de feitos heroicos, de primores e gentilezas de cavalleiros intemeratos,—occaso opulento de tintas e de sombras grandiosas, em que a{159} luz briga ainda com as trevas, affirmando na lucta o valor que certamente havia aprendido com os cavalleiros d'esse tempo.
Estes dous homens, o infante e o conde, são como uma dupla personificação da sua época, do momento de transição solemne em que a poesia das espadas, a epopêa das cavallarias errantes, que preparavam a alma humana para todas as concepções arrojadas e para todos os feitos destemidos, vai ceder o passo á quilha das caravellas e das naus, que iam em demanda do Oriente para trazel-o ás portas de Lisboa, estreitando as relações dos povos, desenvolvendo a navegação e o commercio, fomentando a industria pela abundancia de capitaes e pela exploração de novos mercados, pela nobilitação do trabalho, que não tardaria a deixar de ser um mister de escravos para converter-se n'uma applicação honrosa da actividade humana.
O infante e o programma, ainda então{160} mal desenrolado, da transformação economica da Europa culta.
O conde é o livro, prestes a fechar-se, do espirito militar da idade-média, o ultimo clarão da cavallaria moribunda.
São uma época, estes dous homens. Completam-se um pelo outro.
Ora, no momento em que a cidade do Porto vai prestar uma grande homenagem collectiva ao infante Descobridor, que n'essa boa terra nasceu, e fazer resuscitar por alguns dias o periodo mais brilhante da nossa historia nacional, pareceu-me justo, agora o repito, recordar o vulto do homem que, ao lado de D. Henrique, synthetisa o seculo XV, a transição da idade-média para os tempos modernos, na historia de Portugal.
Tendo, meu caro snr. Lugan, de lhe enviar esta carta a tempo de poder ser publicada por occasião da festa centenaria do infante, fui obrigado a circumscrever-me{161} a estreitissimos limites, e a passar rapidamente por acontecimentos que mereciam longa attenção.
Não é um trabalho litterario perfeito o que lhe mando, porque o fazel-o excederia os meus recursos e não caberia nos poucos dias de que pude dispôr. É, pois, uma simples carta, escripta ao correr da penna, sem preoccupações academicas, mas inspirada unicamente no desejo de corresponder á louvavel resolução do meu bom amigo e de, por minha parte, render homenagem ás glorias da minha patria.
Lisboa, 2 de fevereiro de 1894.