D. Affonso V leu isto, que foi escripto na sua propria casa—acabousse esta obra na livrarya que este Rey dom Affonso fez em Lixboa—e sentiu, porventura, passar ainda por diante dos olhos o vulto d'esse cavalleiro fascinante, que elle quiz por força vêr quando D. Alvaro ia caminho da Ameeira, e que tamanha influencia exercia no seu juvenil espirito, que os inimigos do infante D. Pedro, quando o conde de Avranches regressou de Ceuta pela segunda vez, julgaram conveniente a seus fins levar o rei para Cintra, de modo a evitar nova entrevista.

Affonso V leu isto, e certamente lhe pesou na alma o remorso de ter cedido ás perfidas suggestões dos inimigos do infante.{155}

As palavras que Azurara havia escripto, ficaram. O rei não as cancellou. O espirito de Affonso V fez justiça ao chronista e ao conde, conservando-as.

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Tal era o homem, o heroe.

Elle bastaria por si só a caracterisar uma época, o occaso da idade-média em Portugal, se, a dous passos de distancia, os descobrimentos maritimos, promovidos pelo infante D. Henrique, não tivessem vindo relegar para o segundo plano do vasto quadro da civilisação universal todos os outros factos, e todos os vultos humanos que não collaboraram directamente n'essa colossal epopêa das aventuras maritimas.

Alvaro Vaz de Almada é até certo ponto prejudicado pelo esplendor de uma{156} época gloriosissima, que marca o inicio dos tempos modernos. Eramos então tão felizes que sobejavam heroes, heroes de uma raça unica, inexcedivel, para todos os generos de celebridade. Mas a grandeza do vulto do conde de Avranches, podendo medir-se pela bitola dos maiores e melhores cavalleiros do cyclo medieval, tanto se abalisou nas tradições da Europa cavalheiresca, que não ficou de todo offuscada pelo esplendor da sua propria época.

Quando quizermos recordar o periodo aureo em que o espirito aventuroso dos portuguezes investia com as lendas tenebrosas do oceano, para rasgal-as com a prôa das caravellas descobridoras, e affrontava os perigos das explorações terrestres por sertões inhospitos, teremos que figurar na nossa imaginação o vulto do infante D. Henrique, de pé sobre o promontorio de Sagres, dominando o mar, que se lhe quebrava aos pés humilde como um{157} leão vencido, e que, no seu eterno refluxo, ia levar a longinquas plagas o prestigio do nome portuguez.

Mas quando quizermos figurar a agonia extrema da cavallaria portugueza, quando quizermos procurar a chave de ouro que fechou, n'esta região do occidente, o periodo do valor militar, das aventuras galantes, da coragem no soffrimento, da dedicação na amizade, da abnegação na existencia e da heroicidade na morte, teremos que figurar o conde de Avranches, brandindo primeiro a lança, floreando depois a espada, no campo de Alfarrobeira, onde o infante D. Pedro era já cadaver, até que, extenuado, sentindo exhalar-se o derradeiro alento, cae sobre a terra da patria, offerecendo aos golpes dos adversarios o corpo que já podia menos do que a alma, e exclamando ao despedil-a: Ora vingar, villanagem!

Se o infante D. Henrique é o traço de{158} união que para todo o sempre, emquanto se não perder a memoria das grandezas passadas com a existencia do ultimo homem, nos liga ao Oriente, cujas portas abrimos, cujos mares devassamos, cujos emporios vencemos, D. Alvaro Vaz de Almada é o vinculo eterno que nos prende ao Occidente cavalheiresco, ás tradições aventurosas do brio militar e do militarismo galante que foram, na Europa da idade-média, a suprema expressão da nobreza da alma humana.