Ora não foi o rei de França, mas o de Inglaterra, como já está dito, que deu o condado de Avranches a Alvaro Vaz de Almada. E, dizendo a lenda que o torneio dos Doze se realisou em vida do duque de Lancaster, não podia Alvaro Vaz tomar parte n'elle, por não ser ainda nascido ou por estar ainda na primeira infancia.
Em conclusão, meu caro snr. Lugan:
Na formação das lendas, a imaginação popular não olha a anachronismos. Alvaro Vaz foi um cavalleiro famoso por seus feitos d'armas, pelo seu grande valor; combateu ao serviço de Inglaterra e em Inglaterra foi mais tarde agraciado: a{151} lenda cavalheiresca dos Doze envolveu-o portanto nos seus magicos véos, para nos servirmos de uma expressão de Pinheiro Chagas, sem attender á chronologia. Tambem em torno do infante D. Pedro se fórma a lenda das sete partidas, originada nas suas viagens. A imaginação popular não podia deixar de envolver no maravilhoso das tradições nacionaes estes Castor e Pollux do seculo XV, tão unidos moralmente, tão consubstanciados, na vida e na morte, por um estreito laço de relação historica.
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Seria longo trabalho enumerar as menções e referencias que de Alvaro Vaz de Almada fazem tanto os escriptores portuguezes,{152} como os estrangeiros que se têm occupado em estudar a historia do nosso paiz.
D'estes, alguns, Ferdinand Denis á frente, lamentam que tão pouco se saiba da vida do conde de Avranches. Um d'elles, que é dos que melhor conhecem a litteratura portugueza, mr. Francisque Michel, chega a escrever: «Nous ne savons rien de sa vie».
Quanto aos escriptores nacionaes, não quero, comtudo, deixar de citar Gomes Eanes de Azurara, porque escrevia em circumstancias verdadeiramente embaraçosas para elle. Azurara fôra encarregado por D. Affonso V de escrever a Chronica do descobrimento e conquista de Guiné. Por D. Affonso V, note-se, por D. Affonso V, que moveu o seu exercito contra o infante D. Pedro, e que tão severo se mostrou com todos os que combateram em Alfarrobeira ao lado do infante.{153}
Azurara acabou de escrever a sua Chronica em fevereiro de 1453, isto é, menos de quatro annos depois do deploravel acontecimento, quando ainda não estavam de todo apagadas as paixões politicas que lhe deram origem.
Pois, não obstante estas difficeis circumstancias em que se via collocado, Azurara, com louvavel hombridade, faz esta referencia a D. Alvaro Vaz de Almada:
«... batalha da Alfarrobeira, naqual o dicto iffante foe morto e o conde Dabranxes que era com elle, e toda sua hoste desbaratada, onde, se o meu entender pera esto abasta, justamente posso dizer, que lealdades dos homees de todollos segres (seculos) forom nada em comparaçom da sua. E postoque o serviço nom seja tamanho, quanto ao trabalho, segundo os que já disse, certamente as circonstancias lhe dam splandor e grandeza sobre todollos{154} outros, cuja perfeita declaraçom remeto aa estorea geeral dos feitos do regno»[[80]].