Malafaia, que já tinha sido escrivão da chancellaria de el-rei D. Fernando, seguiu, por morte d'este rei, a causa do mestre de Aviz, exercendo depois, e em annos successivos, os cargos de védor da fazenda{25} real, e o de regedor (presidente) da Casa do Civel, além de receber por doação as propriedades confiscadas, no termo de Lisboa e Santarem, a João Fernandes Pacheco e a Fernam Gomes da Silva.
Como Malafaia foi nomeado regedor do Civel em 1457, mais de vinte annos depois da morte de D. João I, entende um escriptor moderno ser inverosimil a noticia d'aquelle conflicto como causa determinante da emigração de João Vaz de Almada, por isso que os codices dão Malafaia como exercendo o referido cargo n'essa occasião[[15]].
O facto dos chronistas lhe declararem a qualidade de regedor do Civel não invalida, a meu vêr, a noticia do conflicto, porque muitas vezes os escriptores antigos,{26} referindo-se a um acontecimento qualquer, intromettem circumstancias que se deram antes ou depois, especialmente quando mencionam titulos ou actos de um mesmo individuo.
O conflicto causou escandalo e irritou D. João I, que, collocado entre dois homens a quem devia serviços e dedicações, cortou a direito, quiz fazer justiça contra o aggressor.
João Vaz de Almada teve de fugir para Inglaterra, onde já era conhecido; e levou comsigo os seus dois filhos, Pedro e Alvaro.
Fosse esta ou outra qualquer a causa determinate da sahida do fidalgo portuguez e seus dois filhos legitimos para Inglaterra (o auctor da Historia Serafica limita-se a dizer: «os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso tiveram», parecendo comtudo querer occultar assim um motivo desagradavel), o que não{27} padece duvida é que João Vaz de Almada emigrou para aquelle paiz, d'onde, tendo fallecido, vieram mais tarde os seus restos mortaes, bem como os de seu filho Pedro, para a capella de familia, que possuiam em S. Francisco de Lisboa[[16]].
Duarte Nunes de Leão diz que João Vaz de Almada acompanhára o rei de Inglaterra, que devia ser Henrique VI, até Rouen. Sendo assim, assistiria ao sacrificio de Joanna d'Arc (30 de maio de 1431). E que fôra agraciado com a ordem da Jarreteira[[17]].
Pela minha parte não ouso confirmar estas noticias, mas apenas acceitar, como authentica, a morte de João Vaz de Almada em Inglaterra.{28}
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Fallemos agora de Alvaro Vaz de Almada, o bom capitão, o heroe famoso de um cyclo de heroes, que deu honra e gloria a Portugal.