—Pois que assi é, vão chamar João{21} Vaz de Almada[[10]], que traz a bandeira de S. Vicente, e digam-lhe de minha parte que a vá logo poer sobre a mais alta torre.
Chamado immediatamente João Vaz, foi, com alguns outros, caminho do castello, levando o estandarte de S. Vicente, padroeiro de Lisboa.
Tentavam forçar as portas da fortaleza, quando sobre o muro appareceram dois homens, um biscainho e o outro genovez, que lhes disseram em castelhano:
—Não filheis trabalho em quebrar as portas, cá não tendes nenhum empacho em vossa entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui e sómente ficamos nós ambos que vos abriremos as portas quando quizerdes.{22}
—Ora pois, respondeu João Vaz de Almada, filhai lá esta bandeira e ponde-a sobre esse muro, até que nos vamos.
Este mesmo episodio é contado por mestre Matheus de Pisano[[11]], estrangeiro erudito, que foi chamado a Lisboa para escrever em latim a historia da guerra de{23} Ceuta, como quer Herculano[[12]], ou para ser professor de D. Affonso V.
João Vaz de Almada levou a Ceuta os seus dois filhos, Pedro e Alvaro, que, depois da victoria, ahi foram armados cavalleiros: Pedro pela mão do infante D. Duarte, herdeiro da corôa[[13]]; e Alvaro por mão do infante D. Pedro.
Foi certamente n'esse dia que principiaram a estabelecer-se entre D. Alvaro Vaz de Almada e o infante D. Pedro, como consequencia tradicional d'essa cerimonia, os laços de lealissima amizade, que os uniu durante toda a existencia, e{24} que não deixou sobreviver um ao outro mais do que alguns momentos.
D. João I deu a capitania e guarda da fortaleza de Ceuta a João Vaz de Almada, que a teve até á partida d'el-rei para o reino, ficando depois a cidade entregue a D. Pedro de Menezes, que foi o primeiro capitão d'ella.
Recolhendo a Portugal, João Vaz de Almada, malquistado, por motivos desconhecidos, com Gonçalo Pires Malafaia, esperou-o ás portas da Relação e maltratou-o corporalmente[[14]].