Pouco adiante das Campas, dois bois corpulentos, largamente armados, pastavam em liberdade, com o ar de estarem já bem fartos de pascigo.{38}

Á medida que nos aproximavamos de Santo Thyrso, iamos encontrando os ranchos dos romeiros que voltavam do arraial da Trofa. A viola minhota, chuleira e folgasã, cadenciava a caminhada n'um andamento militar, como os rufos de um tambor regulam o passo largo e unisono dos soldados de um destacamento em marcha. O tocador, pendida a cabeça sobre o peito, sacudia a mão direita fortemente pelas cordas, n'um repenicado estridulo. O caminho de ferro de Bougado alliviara os romeiros da fadiga da jornada. Iam frescos como se tivessem bebido menos e descansado mais.

Que diriam os benedictinos de Santo Thyrso se podessem resuscitar, e, debruçados no muro da cêrca, vissem desenrolar-se por sobre o arvoredo fronteiro a pluma ondulante do fumo da locomotiva?!

Elles viveram ali entrincheirados entre a villa, que engrandeciam, e o rio, que os deliciava. De um lado, as moçoilas carnudas e carnaes; do outro, os rouxinoes devaneiadores da beira d'agua. De portas a dentro, a cosinha e o coro. Tudo aquillo{39} era d'elles, os frades, senhores suzeranos das localidades que povoavam,—directa e indirectamente. O caminho de ferro é um invasor audacioso, que passa esmagando e rompendo. Os frades, se agora podessem ouvir-lhe o silvo triumphal, gritariam á d'el-rei contra o progresso, apitariam contra a machina a vapor.

No relogio dos destinos humanos ha uma hora providencialmente marcada para tudo o que principia e acaba. De modo que, por uma sabia organisação superior á nossa intelligencia, tudo principia e acaba quando deve principiar e acabar. Ao frade que comboyava as almas para o ceu, succedeu opportunamente a locomotora que passa comboyando passageiros para Guimarães. Deus é grande!

Era noite fechada quando entrei em Santo Thyrso. Valeu-me a escuridão ao desprimor da gineta. Não havia espectadores, e a garrana alargava o passo, contente de se vêr perto de casa. Apeei, entregando a chibata ao Bernardo do João de Deus, que me perguntou:

—E que tal, a garrana? Não dizia eu que era segura?{40}

—Mais seguro do que isto, respondi, só o Banco de Portugal.

Elle não entendeu; por isso, riu.

E eu recolhi-me com as gratas recordações d'esse dia agradabilissimo que passei na quinta de S. Miguel de Seide, sob o tecto hospitaleiro do primeiro romancista portuguez, entre pessoas queridas, e memorias saudosas de que tanto haviamos fallado.