A tarde declinava n'uma suavidade dormente. Os passaros cantavam no arvoredo da quinta, n'uma festa de lyrismo primitivo. Junto ao monumento de Castilho condensava-se uma sombra silenciosa, como se as aves não poisassem n'aquelle recinto senão para chorar o poeta que as cantara.
Eram horas de partir. Os meus amaveis hospedeiros, e os seus hospedes, vieram acompanhar-me ao portão da quinta. O visconde procurara apoio no meu braço, ao passo que a sr.ª D. Anna Placido colhia para mim algumas flores do seu jardim,—recordação inestimavel da minha visita a Seide.
Fóra do portão esperavam respeitosamente o Bernardo do João de Deus e a garrana. Ambos pareciam satisfeitos: elle porque trazia mais vinho verde no estomago, ella porque tinha menos moscas no pescoço. As moscas do Minho já eu disse que são formidaveis, porque lhes senti, por endosso da garrana, a dolorosa ferroada. O vinho verde de S. Miguel de{36} Seide é de se lhe tirar o chapeu, mesmo para que o chapeu não caia da cabeça caso a gente se tenha desmandado nas libações. É excellente e, por ser encorpado, deve trepar:—pelo menos, o Bernardo do João de Deus foi d'esta opinião.
Antes de montar, pedi a Camillo que se não risse da minha impericia de cavalleiro.
—Quem lhe dera essa garrana no Chiado! dissera jovialmente Camillo.
—Piedade! exclamei eu sobre o sellim.
A garrana, comprehendendo melhor as minhas intenções do que as minhas esporas, partiu.
Eu parti com ella, e o Bernardo do João de Deus na alheta de ambos.
Em Landim, na venda do José Maria, conversavam os mesmos quatro homens.
De algumas casas subia placidamente o fumo do lar accêso para a ceia. Em outras, ouvia-se fallar mulheres, chorar crianças. Alguma cabeça loira, sentindo os passos da garrana, vinha espreitar á janella.